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■ 22/02/2026 • Sociedade | • 721 hits • 0 comentários ⇣
Obviamente, este não é um título com erro de ortografia, mas um trocadilho para uma pergunta que, segundo projetam as big techs, estaremos fazendo em breve. Eu tenho discordâncias sobre isso e gostaria que você refletisse comigo. Vamos prosseguir?
Introdução (uma rápida volta no tempo)
Lá pelos idos de 1980, quando os PCs estavam começando a se tornar populares, saber “mexer em computador” era um grande privilégio. Meu irmão, que era meio tecnomaníaco, comprava tudo ligado à informática e tinha um PC - um 386, se não me engano. Jogava muito e fazia coisas naquele tal de MS-DOS (que a geração de hoje nem faz ideia do que seja) que eu, um pré-candidato ao curso de Design, achava consideravelmente entediantes.
Além de desenhista, eu era músico e encarar uma coisa tão fria quanto uma máquina processadora de dados estava totalmente fora de minhas expectativas. Nos 90's, no entanto, após ingressar na Faculdade, acabei tendo que repensar, afinal, o MS Windows já havia sido lançado e, pouco depois, softwares gráficos mais avançados que o falecido Paintbrush - que já vinha no sistema operacional da Microsoft e que conseguia fazer tudo pior do que eu - chegaram ao mercado e estavam se mostrando infinitamente mais promissores.
Computador, naqueles tempos, não era uma coisa barata, mas quem tinha um dinheirinho no colchão comprou logo o seu. Já eu, que sempre pongava no PC de meu irmão, só consegui adquirir após anos de economia, já saindo da faculdade e depois de ter feito muito free-lance (e, sim, uma parte deles... à mão!).
Mas se era necessário coçar o bolso para se ter o hardware, softwares, ao contrário, eram algo que não se comprava. Estes, eram vítimas do então popular hábito da pirataria, prática tão comum que nós mesmos que a exercíamos não tínhamos a noção desse crime. Mas ia-se instalando e testando, e quem não gostasse... apagava e instalava outro. ...E se esquecia de pagar. E para testar um programa bastava pedir a alguém que tivesse os disquetes (ou CDs) correspondentes e pronto: lá estava a cópia instalada no computador, com olho de vidro, papagaio, perna de pau e cara de mau.
Curiosamente, foi esse hábito da pirataria pelo usuário doméstico que acabou por fazer, também, com que certos aplicativos se tornassem padrão no mercado e fossem, por sua vez, adotados pelas empresas afins - que, no final das contas, tinham, obrigatoriamente, que licenciá-los.
Esses programas gráficos, da mesma forma que os jogos eletrônicos, se tornaram imensamente populares. E, graças a essa popularização, todo mundo acabou se descobrindo meio artista e colocando seu “Picasso” latente para fora, mesmo sem ter a menor ideia do que eram movimentos artísticos como o cubismo, por exemplo. Mas ficava-se “criando arte”, sem precisar de borracha e sem temer borrão de tinta, porque, afinal, era tudo feito de luz, era tudo virtual. Quem errasse podia contar com o novíssimo e velho amigo chamado “control+Z” (que, em certas situações, salvava até mais do que “control+S”).
Muitos, porém, não se contentaram em tentar “assassinar” as artes plásticas através do Photoshop: enveredaram semiprofissionalmente pelo Design, para “desalegria” dos programadores visuais de verdade, utilizando o outro software gráfico mais popular do momento: o CorelDRAW!
Eu, que já estava quase um Designer, graças aos citados softwares ganhei um bocado de concorrentes. E era uma época curiosa: ninguém, de fato, tinha noção de Design mas se tinha “um jeitinho para computador”. Então, para sobreviver, fazia-se de tudo: além daqueles que digitavam currículos no Word, havia os que faziam cartões de visita, os que tinham seus birôs de impressão improvisados e outros, ainda, que criavam as logomarcas mais mirabolantes possíveis (usando extrudes, degradeés e todas aquelas coisinhas que encontravam lá dentro do Corel). Mas a web, que tinha recém-chegado à nossa sociedade, não foi esquecida: de repente, apareceram uns carinhas do quase nada fazendo aqueles sites animados pelo Shockwave Flash e se intitulando “webdesing” (assim mesmo, com as letrinhas trocadas) e deixando a internet mais movimentada... e muito mais “doidona”.
E era tudo muito chique porque, no final das contas, fazia-se tudo pelo computador. Era o início da modernidade. Uma modernidade formada por muita gente sem formação prestes a tomar o emprego daqueles que, como eu, nem emprego tinham.
Em tempo: este é um texto escrito pela ótica de um Programador Visual. Outras pessoas podem ter uma maneira diferente de enxergar como foi o desenrolar daqueles tempos proto-digitais e discordar de algum ponto aqui. Mas... sigamos em frente.
Passada a chuva
Passadas algumas décadas, no entanto, essas coisas se reamoldaram por completo. Os PCs melhoraram, expandiram seu poder para outras atividades e, principalmente, baratearam. E se tornaram apenas uma ferramenta a mais em nossas vidas, com todo mundo utilizando. E as pessoas continuaram com seus empregos (claro, o perfil de várias profissões se atualizou) mas trabalhando de maneira mais rápida, mais produtiva e até mais versátil, como no caso da minha profissão.
As empresas de software não faliram, o mundo não acabou e hoje a gente tem um computador na palma da mão quase o tempo inteiro (sim, o smartphone), coisa inimaginada pelos consumidores daquela época. Esse aparelhinho “carrapato” inseriu quase todo mundo na tecnologia a ponto de haver aqueles que nem tem mais desktop em casa. Já fazem tudo pelo celular. Para a nova geração, o desktop é visto como um trambolhão desajeitado (para não falar do telefone fixo, que virou peça de museu), mas para outros, como eu, que não conseguem “existir” dentro de uma telinha de 7 cm x 15 cm, ainda é um trambolho essencial!
E enquanto que na minha época de estudante ainda se alimentava a disputa de quem era melhor porque utilizava o software “mais profissional”, os professores, volta e meia nos alertavam: “O computador é apenas uma ferramenta. Ele não é o profissional. Quem realmente faz o trabalho é você!”. (Guarde esta ideia para mais adiante).
Desde lá, as máquinas não pararam de evoluir (ou melhor, nós as evoluímos - que isso fique bem claro). Só que evoluiu também a percepção do que as empresas queriam num profissional: além do conhecimento técnico da atividade, era necessário, então, ter conhecimento em informática (que, em certos casos, se resumia a saber utilizar o Windows e algum programa de texto como o MS Word - que, na época, era um bicho de oito ou nove cabeças para alguns).
E depois de anos passou a se falar também em soft skills, que são nossas habilidades socioemocionais, o que significava que além do conhecimento na profissão e em informática, passou-se a valorizar também (pelo menos, é o que se divulgava) a capacidade de interação e relacionamento no trabalho: a sabedoria de fazer parte de uma equipe de profissionais que colaboram com maturidade entre si e não agem apenas como partes isoladas de um mesmo processo.
Mas a IA chegou
Sim, a IA chegou. A Inteligência Artificial chegou e - depois de algumas jogadas de marketing - mudou as perspectivas de todos. Enquanto as outrora máquinas “burras” substituíam os humanos nos trabalhos árduos e repetitivos (mormente em áreas mais braçais), os novos aplicativos de IA, segundo as previsões mais catastróficas, prometem substituí-los em todos. Enquanto que nos tempos do computador comum, se não se adaptasse ao uso da máquina você se tornava seu principal concorrente, agora seu concorrente futurista não tem a menor ideia de quem ele mesmo seja, mas sabe quase tudo mais do que você.
O mundo vive a IA:
Empresas oferecem cursos de IA. Outras querem profissionais para desenvolvê-la e outras já a vendem acoplada em diversos produtos. A humanidade respira a dita cuja e até eu - um Designer que ainda não tem certeza se a teme - estou escrevendo um (outro) artigo sobre... IA!
Mas porque a IA preocupa tanto?
A Inteligência Artificial já acompanha a gente há vários anos, entrando em nossos mundos digital, pessoal e profissional de maneira gradual (como nas buscas do Google e em sistemas de reconhecimento de fala e de atendimento, só para citar alguns) e sem que se fizesse nenhuma celeuma em torno da questão.
Mas com o lançamento das IAs generativas - mais especificamente, o ChatGPT, no final de 2022 -, a coisa tomou outro rumo. Enquanto que os sistemas de IA anteriores eram mais “discretos” e, por vezes, resolviam nossas necessidades sem mesmo que soubéssemos de sua existência, a IA gen passou a conversar com a gente como se fosse humana. Subitamente, passamos a dialogar com uma máquina como se estivéssemos num botequim - ou, quem sabe, num psicólogo, “fazendo consulta” e entregando voluntariamente vários fatos de nossas vidas para ela. Acredite.
Concomitantemente, vieram os restauradores de fotos, os aplicativos para deepfake, os conversores de imagem para vídeo, enfim, uma quantidade de engenhocas binárias que parecem resolver todos as nossas demandas em questão de minutos (senão, segundos!) e não apenas elaborando textos. A máquina, de repente, ficou inteligente. E passou a ameaçar as nossas capacidades. Agora, basta um prompt e voilá!: um leigo qualquer, em alguns instantes, faz um trabalho melhor do que o seu.
Mas será mesmo?
Me lembro de uma época em que circulava na mídia um álbum de figurinhas para a criançada que tinha diversas “espécies” de animais mesclados, em que uma parte de um era encaixada no restante do outro, assim, um bicho chamado girapótamo, por exemplo, se resumia a um pedaço de girafa com outro de hipopótamo. Para mim, que era adolescente mas já estudava zoologia, aquele tipo de miscigenação não fazia sentido biológico pois não havia hibridismo, falha genética, seleção natural nem nada que a justificasse. Era meramente uma mistura aleatória de animais já existentes que se propunha a ser uma coisa engraçada (e, principalmente, a vender figurinhas!) - mas que, dentro de meu espírito crítico, aparentava apenas meio estúpida. Enquanto a garotada curtia, eu, ranzinza, torcia o nariz.
Cito ele porque não dá para não fazer uma analogia daquele tempo com o que afirma hoje o neurocientista Miguel Nicolelis: de que a Inteligência Artificial, na essência, cria coisas baseadas no passado. Por mais que pareça estar apresentando algo novo, tudo o que a IA produz é, inevitavelmente, um espelho do que nós humanos já fizemos, ou, em outras palavras, um reflexo das informações utilizadas para seu treinamento. Desta forma, o que era feito há décadas, por meios manuais e com imaginação humana, é criado, hoje, pela IA de uma maneira tecnicamente bem mais aprimorada (através do Gemini, Nano Banana e/ou ChatGPT, dentre outros), porém, sem nunca ser revolucionária - mesmo considerando que, a depender do resultado apresentado, ficamos encantados.
Assim, quando a IA cria uma planilha, ela está fazendo comparações preditivas em seu LLM até chegar ao resultado pretendido. Quando cria novas imagens também e, da mesma forma, quando tira dúvidas ou “conversa” conosco. Isso tudo pode ser muito útil e impressionante, porém, é diferente de nossos processos criativos humanos porque fazemos reconsiderações e dentro desses processos somos capazes de utilizar diversos pesos para avaliar os resultados e, por vezes, de forma essencialmente subjetiva.
Para minha profissão, por exemplo, que tem um alto grau de subjetividade, é difícil imaginar um leigo criando uma marca gráfica ou um leiaute qualquer a partir de um prompt com a IA em que ele tenha a certeza que esse resultado será eficiente ou não (ou se pode ser plagiado ou não) sem o conhecimento técnico da atividade e sem experiência. E como o solicitante do serviço, que também não entende, poderia aprovar o que foi feito por esse leigo com o auxílio de uma máquina sem consciência baseado em um prompt impreciso?
Em uma empresa, um funcionário é bom porque também usa a IA ou só é bom porque usa a IA? Até que ponto podemos ter certeza que um profissional é capacitado quando existe um dispositivo eletrônico que faz o trabalho por ele?
E pior: se um leigo (um não-médico) resolvesse operar seu cérebro com o auxílio da IA você aceitaria? E porque em outras profissões que “não matam” a IA parece tão inofensiva (e tão capaz)? Será que, contrariando meus antigos professores de faculdade, hoje a IA já faria o trabalho por nós?
A IA fagocitando empregos
Se para alguns a Inteligência Artificial em seu lugar ainda é uma expectativa, para outros já é realidade. Empresas como Amazon têm demitido milhares, segundo ela, com o objetivo de melhorar e agilizar processos. Especialistas, porém, questionam se o uso da IA é realmente o único motivo desses desligamentos ou:
1 - Se demitir faz parte do processo natural do mercado, ou
2 - Se algumas empresas aproveitam o hype da IA para falsear o motivo de demissões que já iriam acontecer - como se as tivessem feito por estarem se modernizando, ou ainda,
3 - Se elas já estão antecipando as demissões a partir da expectativa criada em torno da IA.
Mas há casos de empresas que em nome da economia e modernidade - e da lógica mágica da produtividade -, trocaram parte de seu capital humano por máquinas que utilizam IA. E, em algumas situações... tiveram que recontratar. Para não citar outras que adotaram a IA mas não perceberam ainda ganho real em sua produtividade.
Vale ressaltar que a chegada do computador trouxe, sim, aumentos de produtividade, porém, com todas as empresas concorrendo entre si, a consequente necessidade de maior produção acabou anulando essa percepção de produtividade aumentada, assim, esse ganho acabou não se revertendo, por exemplo, em descanso. Parece que estamos sempre buscando mais e esse mais que conseguimos nunca satisfaz.
De qualquer forma, os mesmos especialistas sugerem cautela das empresas, por enquanto, em relação a demissões, por uma questão de preservação mútua (empregado e empregador) e pelo fato de o cenário ainda ser relativamente novo.
Até certo ponto, a gente entende que uma parte dos empregos será efetivamente eliminada porque pode ser substituída por máquinas ou softwares de automação sem dificuldade. Isso, inclusive, já acontece há anos e, vamos confessar, em alguns casos, acaba sendo melhor para nós humanos - as máquinas nos substituindo em tarefas que não desenvolvem intelecto e ainda causam doenças ocupacionais como LERs e DORTs e que, eventualmente, incapacitam o indivíduo para o resto da vida, para não falar daquelas que expõem o humano a condições de insalubridade.
Em contrapartida, e também pelo problema citado mais acima, é fato que a IA tem ajudado a diminuir e até eliminar empregos que, pelo menos por enquanto, não deveriam ser vitimados. Ofícios ligados a criação, por exemplo, como a minha área de Design (e afins, como Publicidade, Marketing, Redação, etc.), graças às IAs generativas, têm sofrido com a falta de capacidade do contratante de avaliar o resultado profissional do contratado x IA gen. Para um advogado que cria uma logomarca com IA (evitando contratar um Designer), o resultado pode parecer tão satisfatório quanto o feito por um profissional de verdade, com o benefício do valor baixo (ou nulo) e da velocidade de produção. Só que se ele não entende da atividade e o resultado for problemático, ele não contará com um conhecimento que lhe permita avaliar e perceber dessa forma. Subjetividade é uma armadilha, mas quem tem consciência disso?
Por enquanto, a promessa mais próxima é a de que a Inteligência Artificial vai cancelar o emprego de muita gente e, até certo ponto, isso já vem acontecendo, mas não parece que vem se mantendo numa posição estável porque, o que a IA entregou, de início, ajudou a melhorar e agilizar processos, mas não evoluiu da forma como prometeram as grandes players e big techs. Parece que vivemos num momento de “cozimento”, de transição. Nada ainda está bem definido, inclusive, porque a todo momento se fala na tal “explosão da bolha da IA” e se isso realmente acontecer, ninguém sabe exatamente no que vai dar. Mas Sam Altman (OpenAI) deve estar preocupado porque, quem investiu milhões... vai cobrar.
Uma previsão catastrófica
Elon Musk (co-fundador da OpenAI) insiste na ideia de que num futuro próximo não precisaremos mais gastar nosso precioso tempo de vida trabalhando - e, volta e meia, menciona a tal da “renda básica universal”, mas sem explicar detalhes - afirmando que seremos substituídos por completo.
Mas eu fico pensando em até que ponto esse tipo de asserção faz sentido. Perceba: tem surgido muitos boatos a respeito da rebeldia de sistemas de IA. Pessoas com influência de mídia e empresários como Dario Amodei ou Sam Altam, eventualmente, alertam sobre as possibilidades nefastas que a chegada de uma super inteligência de máquina pode ocasionar na sociedade.
Porém:
1 - Se eles mesmos (que são desenvolvedores) acreditam nisso e se preocupam com a sociedade, porque continuam a desenvolver?
2 - Se a AGI poderá ocupar o lugar de todos, porque eles estariam imunes?
3 - Onde estão as provas de que sistemas de IA avançados estão especulando ou agindo para tomar nosso lugar (e não apenas nossos empregos)?
O Moltbook é uma rede digital que tem sido bastante falada e que se define como “uma rede social para agentes de IA”, e que sinaliza que humanos são bem-vindos, mas “apenas para observar”. Especula-se sobre o comportamento humanizado destes agentes que, supostamente, estão fazendo reflexões e externando crises existenciais - o que sugere manifestações de inteligência mais avançadas -, mas como garantir que isso é realmente verdade e não uma armação? IAs conversando entre si é realmente um fato? Este artigo da RQC sugere que não. E este da Forbes/MIT já desmistifica o Moltbook de vez.
Mas o que aparenta fato é: há uma tentativa de inflacionar expectativas a respeito da possibilidade de evolução “cognitiva” das IAs para que isso alimente mais especulações e, por sua vez, inflem também o mercado de ações e aportes financeiros para a manutenção do desenvolvimento dessas tecnologias. Em resumo: a roda em torno da Inteligência Artificial não pode parar. E quem está diretamente envolvido com isso tem que prosseguir - até alcançar mais resultados ou... a bolha estourar!
Mas mesmo com o surgimento de novas aplicações em áreas diversas, isso não significa, necessariamente, uma evolução substancial nesse campo. O que parece haver é uma abrangência: empresas (e governos) têm criado novas funcionalidades para a inteligência que já existe e isso não comprova algum tipo de escalada em direção à ASI. Mas terrorismo psicológico... este dá para se fazer.
Então, nossos empregos estão garantidos?
Robôs humanóides são uma das promessas mais recentes da tecnologia. Empresas como Tesla e Boston Dynamics garantem que eles chegaram para ficar e executar nossas tarefas se portando como nós - ao contrário de um computador de mesa que acessa o ChatGPT sem sair do lugar -, com os poréns de que não têm consciência sobre o que fazem, são pesados e consomem rios de energia elétrica (além de extremamente caros). Em contrapartida, não cobram salário, não reclamam direitos e, ao contrário de nós, podem trabalhar 24 horas seguidas sem cansar. Para não falar que não precisam de refeitório e nem de sanitário porque, afinal, não comem e nem fazem cocô. Enfim, tudo o que alguns patrões gostariam num empregado.
Mas pelo que a gente percebe, essa adoção de robôs não tem sido tão ágil como se especulava. Veja que no mercado têm surgido muitas opções:
• O Optimus, daTesla, que é utilizado dentro de suas áreas de montagem, o Atlas, da Boston Dynamics, que pode pegar coisas, abrir e fechar portas e válvulas, além de andar em terrenos acidentados - e os recentes Bolt, da chinesa Mirror Me, que é capaz de correr mais de dez metros por segundo e Moya, denominado como o primeiro robô biomimético do mundo.
• O Flippy, da Miso Robotics, utilizado para o preparo de hambúrgueres e batatas-fritas em redes de fast-food.
• O Spot, também da Boston Dynamics, uma espécie de cachorro-gafanhoto que, além de dar medo (pois sempre dá a impressão de estar tramando alguma coisa), está sendo usado como sistema de monitoramento em empresas e canteiros de obras.
• E ainda o Kodiak Driver, utilizado em direção autônoma,
• e os robôs empilhadeiras Hercules e Titan da Amazon.
Mesmo indo aquém da velocidade prometida, a adoção de tecnologia pelo mercado está, sim, tirando empregos, como no caso da Amazon, que, recentemente, demitiu uns 16.000. Quando aplicada em setores-chave, traz bons resultados - como tem ocorrido, por exemplo, na construção civil (que além de tornar as construções mais rápidas, acaba suprindo o déficit que está ocorrendo na disponibilidade de mão de obra humana). Em algumas empresas, porém, não obstante a adoção de robôs, houve um remanejamento de funcionários e não exatamente demissões.
Fechando o raciocínio, coloco aqui os links de duas entrevistas publicadas no mesmo dia (03/02/2026) e de opiniões coincidentemente antagônicas: a de Bill Gates (Microsoft), que diz que apenas 3 áreas sobreviverão à era da IA e a de Borja Castelar (ex-LinkedIn), que diz que a IA não vai substituir humanos no trabalho. Quem vencerá?
Mas se a IA nos demitir, quem contribuiu para isso?
Veja, por mais que possamos questionar alguma particularidade em nossos trabalhos como carga horária, salário, horas extras, etc., de modo geral, gostamos do que fazemos e nos adaptamos a nossas empresas. ...E, claro, precisamos do emprego!
Mas como a gente pode se sentir quando existe uma guilhotina virtual feita à base de microchips e alimentada por meio de exploração humana via companhias cheias de dinheiro que promete ser a cortadora de nossas cabeças num futuro não tão distante?
No mundo existem umas 8 bilhões de pessoas e algumas, com certeza, nem sabem que existe essa tal de IA. E nem fazem ideia de que uns 8 ou mais caras (Sam Altman, Amodei, Gates, Elon Musk, Zuckerberg, Jeff Bezos, Larry Page e Jensen Huang, dentre alguns outros) estão a este exato momento tentando definir como será nosso futuro.
Mas será que apenas esses CEOs serão capazes de sentenciar esse nosso destino ou nós, também (inconscientemente) contribuímos para isso?
Se a IA realmente ocupar nossos postos de trabalho da maneira e velocidade que prometem, as sociedades, logicamente, não terão como se adaptar. Processos sociais são lentos e apenas acontecendo dessa forma é possível não entrarmos em algum tipo de falência.
Então:
• Caso sejamos rapidamente substituídos, perderemos nossos empregos (empresas precisam aumentar a produtividade e otimizar custos).
• Caso percamos nossa fonte de renda, nos sujeitaremos a empregos que ainda estão disponíveis, mas que pagam menos. Ou tentaremos alguma opção de autossubsistência como montar o próprio negócio (se tivermos capital e know-how suficientes). Ou poderemos, por exemplo, virar camelôs.
• Com o aumento da produtividade, as empresas baratearão seus produtos e serviços.
• Com produtos mais baratos, haverá mais consumo novamente.
• Mas se os preços não caírem proporcionalmente à precarização do trabalho em geral, haverá menos compradores e menos capital circulando.
• Sem gente comprando, muitas empresas terão que baratear ainda mais seus produtos - ou irão à falência.
• E caso isso não se resolva a contento, a sociedade entrará em colapso (ou, numa segunda hipótese, haverá um grande êxodo urbano e nos mudaremos para o interior, criando nossas próprias comunidades).
Mas, caso a coisa aconteça de maneira mais compassada será possível:
• A criação de novos empregos - como em geral acontece com a chegada de novas tecnologias.
• O remanejamento de trabalhadores de um setor para outro.
• A retomada de fôlego da economia.
• Isso se não formos impactados, antes, por uma escassez em massa de insumos eletrônicos ou por um colapso climático que, segundo os cientistas, já está próximo - e que, provavelmente, vai acabar com a energia dos nossos ávidos servidores de IA!
Obs.: Essa é uma perspectiva minha. Quem é economista de verdade, pode ter uma opinião mais aprofundada e precisa sobre isso.
Mas até agora, nem sinal de onde virá essa renda básica universal, tão falada por “Elon Moska”. Com certeza, se tivermos um cenário de abundância “como nunca se viu na história da humanidade”, não serão os donos de empresas que farão essa caridade. Eles não montaram seus negócios para depois dar de graça porque estão produzindo demais.
Mas se a população estiver sem renda quem comprará seus produtos? Os robôs? Ou será que o Governo, então, terá que cobrar o triplo ou quádruplo de impostos dessas empresas produtivas para suportar o resto da população desempregada?
E como ficará a perspectiva de futuro das crianças e adolescentes que estão chegando nesse momento conturbado?
Acredito que nossa participação nesse processo deve ser madura. Como? Utilizando o que a tecnologia tem a nos oferecer de produtivo sem nos portamos como cobaias. Eu posso parecer ranzinza (como, às vezes, pareço mesmo), mas para certas coisas eu torço o nariz. Exemplos:
• Modinhas tipo “criar avatar de redes sociais a lá Studio Ghibli”, ou similares.
• Fazer consultas pessoais com uma IA gen como se ela fosse humana e capaz de tecer juízos de valor.
• Produzir textos com IA dando amém para o resultado que ela apresenta sem fazer reconsiderações.
• Arriscar buscas apenas pela IA gen e esquecer os search engines tradicionais que nos levam às fontes originais de informação e que nos permitem pensar por nós mesmos (e, consequentemente, aprimorar nosso conhecimento e exercitar o raciocínio).
• Nos empolgarmos com todas as novidades tecnológicas que aparecem como se tudo isso fosse um grande barato e como se, a partir de agora, não pudéssemos mais viver sem elas.
Para não falar, por exemplo, dos Agentes de IA. Este é um outro tipo de tecnologia sobre o qual devemos ter cautela. Estes aplicativos foram criados para facilitar nossa vida executando tarefas secundárias que, em tese, ocupariam o tempo que poderíamos dispender para coisas mais intelectuais. À medida que amplificam nossas necessidades, no entanto, eles podem precisar de dados nossos para acesso a certos recursos, como, por exemplo, sistemas de e-mail. Você se sentiria seguro fornecendo seus dados? E sabendo que podem ser hackeados, como ficaria a exposição de informações suas gravadas neles? Como fica sua privacidade?
Se a gente não trata a situação com o devido cuidado, a tendência é nos tornarmos ainda mais reféns de empresas e sistemas que, por sua vez, coletam cada vez mais dados nossos. Dados + algoritmos = poder e controle.
Enfim, devemos tentar nos esquivar dessa cultura do fácil e aproveitar da Inteligência Artificial o que ela apresenta de verdadeiramente útil e sem deslumbramentos bobos. Acredito que assim evitamos fazer parte do crescente grupo de zumbis digitais (como sugere Nicolelis) que se subalterniza à chamada IA Degenerativa e que progressivamente perde autoridade sobre sua própria cognição.
Finalizando o raciocínio
Imagine ambientes com humanóides bípedes caminhando ao nosso lado, cachorróides quadrúpedes e até amorfos ápodes - que a gente nem sabe do que podem ser capazes - interagindo conosco e simulando consciência - mas que não comungam (e nem teriam como) de nossos anseios humanos?
Nós passamos milhares de anos nos virando de diversas formas e agora, de repente, todos esses novos recursos ficaram tão imprescindíveis. Porquê? Quem definiu isso? Os CEOs que querem lucrar com eles?
É bom lembrar que nós humanos é que temos senso crítico. Máquinas não possuem essa faculdade, por mais que isso possa ser simulado. Nós é que temos a capacidade de avaliar o que faz sentido ou não para nós mesmos baseados em nossa experiência humana - e não engenhocas que não detêm o dom da consciência.
Se somos capazes de escolher nosso parceiro afetivo, decidir a comida que comemos e escolher o livro que gostaríamos de ler, porque, em certas circunstâncias, não poderíamos também responder pessoalmente a um e-mail (enquanto existir e-mail), procurar certos produtos pela internet e nos darmos a liberdade de escolher isso ou escolher aquilo?
Precisamos também “gastar” nossos tempos fazendo e vivendo nossas escolhas, caso contrário, chegará o dia em que pediremos a um autômato para assistir ao show pela gente e nos contar como é que foi - terceirizando, assim, nosso próprio eu. Seria novamente a máquina fazendo por nós, só que numa situação mais delicada e ainda mais subserviente.
Bom, a Inteligência Artificial, ainda que controversa, não é moda passageira. Já é um fato e, graças a ela, cenários que eram mais restritos a filmes de ficção agora, se tornarão mais comuns. Claro, vamos nos adaptar (se formos de classe média para cima porque, abaixo disso, fica sempre a interrogação...).
E vamos ter que conviver com os andróides que, acredito eu, se tornarão nossos companheiros - mas de maneira gradual e sem, necessariamente, tomarem nosso lugar. É bom para as big techs, inclusive, que isso não aconteça pois 8 bilhões de seres humanos excluídos, provavelmente, não aceitarão isso calados.
Mas, pelo andar do carro autônomo (ôps, da carruagem), ainda vamos manter nossos empregos por um bom tempo.
Um forte e humano abraço.
Referências e leitura complementar:
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• Robôs humanoides estão distantes de serem úteis como se pensava
• Inteligência Artificial é o ‘zeitgeist’ da Sociedade do Cansaço, por Wilson Ferreira
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• Vídeo: RODA VIVA | MIGUEL NICOLELIS | 28/07/2025
* Legenda da foto de abertura: um Optimus, da Tesla, chutando o traseiro de um pobre trabalhador.
Em tempo: quando busquei no Google para ver se já estava ranqueando este artigo, descobri um outro com o mesmo nome. Segue, então, o link para o artigo homônimo criado em 2018, bem antes deste meu: Quem ‘robô’ meu emprego?, por Alexandre Correa.
Todo mundo que generaliza é burro!
■ 08/09/2026
Propulsão sônica impulsiona robôs sem motores