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■ 12/10/2025 • Sociedade | • 1634 hits • 0 comentários ⇣
Antes de redigir este texto fiquei me perguntando se seria possível escrever alguma coisa relacionada à Inteligência Artificial - ainda que com um perfil mais filosófico - que logo não parecesse obsoleta, afinal, a todo momento somos bombardeados por uma série de notícias citando as inovações, conquistas e infortúnios que essa nova sensação digital está promovendo e as expectativas que ela tem gerado. E enquanto alguns aguardam para ver, outros se dividem entre a excitante promessa de um futuro fabuloso e a angustiante perspectiva de uma sociedade distópica.
Há milênios, porém, as máquinas nos acompanham (e, em parte das vezes, até nos assustam, tal suas capacidades) e já nos ajudaram muito, em especial, a livrar-nos do trabalho pesado e repetitivo, ao tratamento de doenças, ao aumento de nossa produtividade e ao favorecimento da inclusão social. Ok, gente entende que a tecnologia também trouxe problemas, mas isso é muito mais uma questão de relações humanas do que dela em si. Não dá para se culpar um produto oriundo de nosso processo socioevolutivo natural pelas ações que nós mesmos tomamos ao nos utilizarmos dele.
E só para conceituar a tempo, máquina é qualquer instrumento ou dispositivo construído pelo homem para a conversão de uma energia em outra ou para a realização de um trabalho específico, independentemente de ser algo sofisticado ou não. As antigas engenhocas que víamos nos livros de história, feitas com roldanas e/ou alavancas, e que serviam, dentre diversas outras funções, para se tirar água de um poço, eram máquinas exatamente da mesma forma que o dispositivo que você usa para ler este texto. A diferença é que estão separados por apenas alguns “anos-luz” de conhecimento científico.
Destarte, os computadores, essas nossas inseparáveis máquinas de pensamento binário, já são muito mais “espertos” e deixam suas antiquadas bisavós no chinelo: já sabem calcular, escrever, desenhar, falar, cantar e tudo o mais que uma boa prosopopeia possa permitir.
E ainda digo mais: não estão conosco nem há um século e fizeram uma transformação social tão impactante que, ao que parece, deixaram o restante de nossa história humana escondida na poeira de um livro velho, sem capa e com o índice quase todo apagado, perdido numa biblioteca do Estado. Tempos remotos separados por um abismo lógico onde a incompreensão de como era possível se viver é uma interrogação colossal, grafada em negrito e em fonte de corpo 50 na cabeça daqueles que chegaram há pouco tempo a esse nosso planeta, um mundinho já cercado por teclas, bytes, pixels... e repleto de incertezas.
Ok, tudo isso que eu escrevi foi um belo dum nariz de cera e você não veio aqui para ler isso. Contudo, se quisesse algo puramente descritivo - e, quem sabe, com vários travessões e com as palavrinhas todas no lugar -, você pediria à IA para lhe escrever, não é mesmo? Mas eu não sou a IA, então, o texto que eu estou apresentando é diferente do que ela escreveria e se propõe a fazer uma reflexão sobre o que esperar de nosso futuro, um futuro justamente com ela, a nossa estrela digital, tão superlativizada e, ao mesmo tempo, temida, a nossa incrível e (não tão) bela... Inteligência Artificial!
A InteligêncIA
Quando era bem mais novo, numa época em que nossa internet eram os jornais e revistas de banca, a definição que tinham me ensinado de inteligência se resumia a algo como “a junção de memória + raciocínio”, o que sugeria, de uma maneira simplista, que se tivéssemos a capacidade de gravar as coisas em nossa mente e criar relações entre elas que fizessem sentido... éramos inteligentes!
Já para o Dicionário Prático Ilustrado da Lello e Irmão Editores, de 1960, que era o que eu tinha disponível durante minha juventude, Inteligência era conceituada como “A faculdade de conhecer, de compreender: é pela inteligência, principalmente, que o homem se distingue dos animais”. Hoje, seu conceito é mais complexo, como, afinal, a própria inteligência demonstra ser, e pode ser definida como a capacidade de se aprender coisas novas, de interpretar essas coisas, compreendê-las, de se resolver problemas a partir daí e, por fim, de permitir ao indivíduo adaptar-se a novas situações.
Atualmente entende-se a inteligência humana não como uma manifestação unitária, mas sim como um conjunto composto por diversas variantes que se complementam, dentre as quais, Inteligência Emocional, Musical, Lógica-matemática, Espacial, Linguística, etc. Considera-se que um indivíduo tem, grosso modo, todas elas mesmo que, de maneira geral, tenha destaque apenas em algumas (esta ideia, contudo, é contestada neste artigo da RQC, que defende que não há prova científica sobre isso).
Ao contrário, porém, do que sugere meu antigo dicionário, inteligência não é uma faculdade apenas humana. Animais, via de regra, também a possuem, mas em graus e complexidade que variam de espécie para espécie e, lógico, numa intensidade bem menor que a nossa. Daí, talvez, a estúpida ideia de se achar que agem apenas por instinto - e, em consequência, que poderiam ser entes passivos e passíveis de um uso indiscriminado de nossa parte.
Mas, manifestar um comportamento opressor (sendo uma constante ou não) não tira o mérito de nosso intelecto. Eu e você acreditamos que seja mais inteligente quando vivemos em paz e nos respeitamos, desta forma lucramos mais em bem-estar e, provavelmente, em tempo de vida. Só que inteligência não pode ser medida por quantidade de bondade e sim por intensidade de uso e resultados. Em outros termos, as soluções que conseguimos criar, seja para benefício da sociedade, seja para uso exclusivamente pessoal, são um indicador manifesto e inconteste de nossa capacidade intelectual.
Mas e a IA? O que serIA?
Não existe uma unanimidade na conceituação do que seria a Inteligência Artificial (inclusive porque nem todos acreditam nela), mas pode-se dizer que é uma manifestação cognitiva com raciocínio e potencial de aprendizagem semelhante à do ser humano, mas realizada por máquinas. E, ainda que a gente entenda que animais também raciocinam e, portanto, são inteligentes (pois conseguem fazer memorizações, associações e encontrar soluções para suas necessidades), a inteligência tomada como base para o desenvolvimento da IA será sempre a mais evoluída que, pelo menos por enquanto, é a nossa, e mesmo não sendo uma manifestação biológica, natural, é entendida por muitos como uma inteligência de verdade.
A despeito de nunca ter existido da forma como existe hoje, a ideia de uma inteligência que parta de um organismo não vivo não é uma novidade. Aristóteles, há mais de dois mil anos, já especulava a possibilidade de haver autômatos que substituíssem o trabalho humano. Mas uma perspectiva mais concreta sobre a criação de uma inteligência de máquina que pudesse se comparar à do Homo sapiens surgiu mesmo na década de 1950, com Alan Turing e a publicação de seu artigo “Computing machinery and intelligence”.
A IA em nosso cotidIAno
A IA, portanto, não surgiu nem ontem e nem de repente. Aplicações web com Inteligência Artificial já nos acompanham há vários anos sem que a gente nem mesmo tenha se dado conta. Os search engines (ou sistemas de busca), por exemplo, que acessamos quase todos os dias, utilizam algoritmos sofisticados para ranquear páginas baseados não só em como estas foram estruturadas e classificadas, mas também no que conseguem inferir a partir de uma sequência, nem sempre coerente, de palavras digitadas pelo usuário. Da mesma forma, o Youtube, quando nos faz recomendações de outros vídeos baseadas em nossos acessos anteriores, e o sistema de banners de publicidade do Google, que nos persegue, seja em que dispositivo estivermos, empurrando-nos aquelas mesmas propagandas de produtos que “fuçamos” antes, indefinidamente e sem piedade.
Os chatbots de atendimento ao cliente são outro exemplo: esses sisteminhas, que existem há mais de 15 anos e que simulavam uma conversa humanizada com o usuário, quando surgiram não eram IAs de verdade. Eles se baseavam em relações lógicas de escolha de usuário x respostas prontas - os chamados “fluxos de decisão” - ou, geravam uma resposta a partir de uma espécie de parametrização baseada em palavras-chave digitadas pelo usuário. Acertavam em alguns momentos mas “alucinavam” em outros - mais ou menos como acontece com as IAs de hoje. Como? Levando-nos de volta a respostas anteriores e deixando-nos meio irritados, rezando para poder falar com uma inteligência humana real, que era capaz de fazer reconsiderações e que resolvia nossos problemas de fato. Mas é verdade que os chatbots atuais estão muito mais sofisticados e conseguem atender à maior parte das questões e dúvidas simples de usuários, aliviando bastante o trabalho dos atendentes biológicos de carne e osso.
Todos esses sistemas citados estão classificados dentro da chamada IA Fraca, que é a única que temos disponível no momento, seja em que campo ela esteja aplicada. Enquanto nível evolutivo, as três categorias principais nas quais as IAs se dividem são:
A ConsciêncIA
Veja que a despeito de já termos diversas manifestações de Inteligência Artificial “convivendo” com a gente há anos, esse termo só se tornou mais evidente (e mais publicitário) após o surgimento da já citada IA Generativa, que, similarmente aos chatbots de atendimento, simula uma interlocução bastante real com o usuário humano.
Esse tipo de sistema funciona à base dos chamados LLM (Large Language Models ou Grandes Modelos de Linguagem) que são, na essência, uma vasta quantidade de informação não estruturada, seja de texto ou imagem, a partir dos quais as máquinas são treinadas e que lhes permite fazer “previsões” baseadas em probabilidades sugeridas a partir desses dados que receberam como referência.
Seu funcionamento, portanto, se baseia na ideia de que a máquina, a partir de seu enorme banco de dados é capaz de “prever” a próxima palavra que faria sentido dentro de respostas possíveis para uma pergunta e dentro de um padrão gramatical lógico do idioma em uso.
Com a GenAI (que tem como uma de suas principais referências o ChatGPT, da Open AI) podemos criar textos, imagens, códigos em linguagens de programação, fazer correções ortográficas, executar OCRs avançados, criar relatórios, dentre outras coisas, simplesmente nos expressando como fazemos em nossos ambientes humanos. Em outras palavras, conseguimos “conversar” com a máquina e nos fazer entender apenas utilizando a chamada Linguagem Natural (termo para o qual eu franzo a testa e torço o nariz por considerar que as linguagens humanas, pelo fato de serem abstratas e inventadas, são tão artificiais quanto as outras que utilizamos fora do cotidiano [como as linguagens de sinais, de programação, notação musical, etc.]. Apenas, ao contrário dessas, se tornou nosso padrão “oficial” de comunicação) a ponto de termos a impressão de dialogar com alguém real.
Isso é tão eficiente que há, inclusive, aqueles que fazem da IA seu “personal confidant” ou até seu psicólogo pessoal, em parte porque essa inteligência sintética, ao contrário de nós, não costuma tecer juízos de valor e, portanto, aparenta sempre amigável e pronta para nos atender. Sempre “De boa!”, como diria o ChatGPT.
Não obstante, recentemente li um artigo escrito pelo professor de neurociência Guillaume Thierry que sugeria a ideia de que se a Inteligência Artificial não tem consciência, então, ela não pode ser considerada inteligente. As duas coisas teriam que estar intimamente relacionadas, assim, o fato de não haver uma automaticamente anularia a outra.
Reforçando a ideia, o próprio neurocientista Miguel Nicolelis discorda que exista uma coisa que possa ser considerada uma Inteligência Artificial. Para ele isso é apenas jogada de marketing de quem está interessado em ganhar muito dinheiro, o que faz bastante sentido. Mas em meu modo de ver, para uma manifestação qualquer poder ser chamada de inteligência, não precisaria ter, necessariamente, todas as características de uma inteligência biológica. Seria uma inteligência “à maneira dela” (mais ou menos como cada um ser bonito a seu modo) - ou, visto de outra forma, e dentro de uma relação metafórica, um título nominativo para um recurso avançado de computação.
Mas, perceba que quando alguém entrega fatos de sua vida à IA Generativa é porque este indivíduo conseguiu ser eficazmente ludibriado pela máquina - por uma simples máquina não orgânica feita de metal e semicondutores. Parece absurdo (e é) mas a gente tem que considerar que o resultado de uma “interlocução” com esses chatbots é altamente convincente. É muito diferente de acessar um caixa do banco 24 horas, que reconhece sua digital, responde a seus comandos e te entrega um punhado de dinheiro. Ninguém vai achar que a máquina fez isso porque é muito “gente boa” e gostou de você.
Interagir com uma IA, para quem já o fez, notou que é muito mais sofisticado. De fato, temos a impressão de estar travando um diálogo com alguém - mas um alguém que existe à base de chips e de milhões de Megabytes de dados coletados da internet e que, deliberadamente, jogou às favas qualquer preocupação com direitos autorais, mas que está ali, na nossa frente, respondendo instantaneamente nossas solicitações (e incansavelmente, até os créditos se esgotarem) e, de vez em quando, mandando um “legal” só para descontrair - mas sem uma consciência real sobre essa interação.
Mas e o que serIA ConsciêncIA?
Consciência é uma coisa meio curiosa de se definir: a gente sabe que tem, não sabe explicar, mas sabe que tem. Minha incapacidade de conceituá-la a priori me fez pesquisar novamente no meu pré-histórico Dicionário Prático Ilustrado, só para saber como era entendida nos 1960's. Para não me estender muito, trago aqui as cinco primeiras definições.
CONSCIÊNCIA, s. f. (lat. conscientia):
• Conhecimento, noção: ter plena consciência dos seus direitos.
• Voz secreta da alma que aprova ou reprova nossos actos: a nossa consciência é o nosso juiz.
• Sinceridade: em boa consciência.
• Cuidado extremo com que se executa um trabalho: é um estudo feito com consciência.
• Opinião: a consciência nacional.
...
Para um dicionário que foi até bem elaborado para sua época, contendo muitas ilustrações e verbetes e com boa quantidade de composições etimológicas de palavras diversas, não achei que estas conceituações (e suas subsequentes) foram muito felizes. Assim, mesmo entendendo que a Wikipedia, hoje, já não é um veículo tão confiável de consulta (mas que ainda vale a pena), fui pesquisar por lá e, por incrível que pareça, também não encontrei nada que me desse a certeza de ter chegado a um conceito que parecesse satisfatório, salvo justamente a definição que principia o texto: “é a ciência da existência interna e externa”. Interessante.
Outras fontes online como Dicio, Priberam, Significados e Michaelis também não apresentaram nada que me parecesse convincente. A Infopédia, no entanto, citou uma explicação que, a despeito de ser bem resumida, me soou eficaz: “Consciência: é o sentimento de si mesmo”.
Em outras palavras, podemos ter ciência de que existimos sem necessariamente racionalizarmos isso. E sem querer descartar Descartes, não precisamos pensar algo como “Penso, logo existo” para chegar à conclusão de que somos um fato. Apenas, percebemos isso. A consciência de que estamos vivos permite que tenhamos uma autonomia de escolha e decisão em relação a nós e ao meio que nos cerca sem que precisemos constatar racionalmente essa condição.
Então, se concluímos que nós humanos somos conscientes de nós mesmos - e entendemos a consciência como fenômeno subjetivo -, por tabela, os animais não humanos também o são, mesmo que em diferentes níveis, pois se percebem e reagem voluntariamente às interações com o meio. De outro modo, ninguém pode afirmar que vegetais e fungos (que pertencem a dois reinos de organismos também pluricelulares mas que não têm cérebro e nem sistema nervoso) também têm apenas porque de alguma forma percebem o meio e interagem (à maneira deles) para sobreviver.
Mas é certo que sistemas não orgânicos como as máquinas, que funcionam a partir de impulsos elétricos dentro de componentes eletrônicos atuando em um padrão de comportamento já pré-programado não podem ter consciência. Isso vale para o caixa eletrônico que lhe dá dinheiro como para a GenAI, que conversa com você lhe esclarecendo dúvidas, falando gírias e dando “apoio moral” - simplesmente porque, enquanto seres não vivos, não podem ter “o sentimento de si mesmos”.
Desta forma, quando se conjectura que “é prudente sermos educados com as IAs generativas porque quando elas evoluírem e adquirirem consciência, não vão querer nos eliminar” ainda permanece no terreno da fantasia. A realidade de um computador adquirir a capacidade de olhar para si mesmo, ou de se perceber - com o vento e o calor sol batendo em seu corpo, por exemplo -, e constatar que está vivo, se acontecer um dia, (dentro da minha crença) ainda vai demorar.
CinemanIA
Se uma coisa definida e entendida no mundo inteiro como Inteligência Artificial (mesmo que com sérias discordâncias) já nos acompanha em nossa vida real há vários anos, o que dizer de IAs que passaram a existir baseadas, apenas, em nossa imaginação?
Quantas vezes assistimos a filmes no cinema, ou até em episódios e seriados de TV, e vimos aqueles fascinantes computadores e autômatos se comunicando e interagindo conosco como se fossem humanos? Quem não se lembra do robô B9, de “Perdidos no Espaço”, que na série era denominado apenas de “Robô” e que constantemente era ofendido e chamado de “lata de sardinha enferrujada” pelo hilário e mau-caráter Dr. Smith (hoje, ia ser assédio moral)? E dos atrapalhados R2-D2 e C-3PO de Guerra nas Estrelas (que a gente nunca sabia direito quem era quem)? Para não falar do abilolado Twiki de Buck Rogers no séc XXV, lembram dele? E em contraponto, o que dizer dos sérios HAL 9000 (2001: Uma Odisséia no Espaço) e Data, de Jornada nas Estrelas, um deles, um computador e, o outro, um andróide quase humano, que tinham a característica de serem emocionalmente lineares e ao mesmo tempo inteligentes e conscientes de si mesmos?
Em nenhum momento eu lembro de ter ouvido falar no termo Inteligência Artificial para se referir a estas máquinas. E nem em outros filmes posteriores que eu tenha assistido que tratavam de temas parecidos. Se aconteceu, não lembro. Mas se falava em autômatos, robôs, andróides, cyborgs, humanóides e até replicantes (Blade Runner), mas IA, se era mencionada, com certeza não tinha a mesma apelação midiática que tem atualmente.
E o curioso é que, talvez pelo fato de essas máquinas representarem, à época, uma perspectiva distante, não se questionava se seria absurda ou não a ideia de poderem ser conscientes.
Mas como elas poderiam se portar como humanos, fazer questionamentos e até se rebelar se não tivessem uma consciência análoga à nossa? E como as máquinas poderiam tomar as nossas atitudes se não sentissem o que nós sentimos?
A SenciêncIA
Não, senciência não é o contrário de consciência. Não é uma “sem” e outra “com”. Muito mais simples de definir, é a capacidade que um organismo tem de sentir, seja de cunho fisiológico seja de cunho emocional. Pode-se dizer que a senciência complementa a consciência. Dentro do meu modo de ver, enquanto a consciência permite subjetivamente a constatação do eu, a senciência permite a percepção do eu em uma dada circunstância - de prazer, de dor, de completude, de escassez, etc.
A priori, se animais são conscientes (mesmo que em diferentes graus), automaticamente são sencientes. Isso quer dizer que podem sentir dor, fome, frio, ter momentos tristes e felizes. Você pode dizer, por exemplo, que nunca viu uma abelha dando risada mas viu seu cachorro brincar com você e isso, obviamente, não é expressão de instinto, mas de um indivíduo animal que é capaz de participar de uma interação totalmente desconectada da inevitabilidade da sobrevivência (que é, essencialmente, a que o instinto se destina), portanto, presenciou uma expressão de consciência (o cão sabia que estava ali) e senciência (o animal percebia o momento como uma relação de prazer, desligada de alguma intenção mais preservacionista como comer ou fugir do inimigo - portanto, não instintiva).
Consciência e senciência são sinais de evolução. Veja que para seres considerados mais inferiores (como vegetais e organismos unicelulares) é questionada a possibilidade de possuírem essas faculdades mas, ainda assim, de certa maneira, são capazes de perceber o meio e reagir (como fazem as plantas quando se inclinam buscando o Sol). Contudo, ainda não existe nenhuma prova de senciência e tampouco de consciência destes.
A senciêncIA artificial
Quando eu ainda era garoto, surgiu uma calculadora, daquelas de bolso, lá em casa, daquelas bem simples. Eu, apesar do sobrenome, tinha um bloqueio muito grande em matemática (um bloqueio, não, um enorme muro de concreto!) e passei a recorrer àquele ábaco vitaminado todas as vezes que precisava resolver operações que parecessem mais complicadas do que uma humilde soma. Era incrível como aquela maquininha conseguia aquilo. Tão burrinha e tão inteligente. Não sabia reconhecer um pote de comida e nem um pedaço de banana de longe - como bem fazia meu sábio sabiá Magoo -, mas nos cálculos... era “craque”!
Em outra situação, e já na minha adolescência, lembro de ter assistido a um episódio de Startrek que, como os demais da série, tinha aquela aura psico-científica densa e envolvente que nos encantava. A história, claro, se passa no futuro: em uma de suas viagens (fazendo um resumo grosseiro) a USS Entrerprise faz contato (ou é contactada) por uma outra nave chamada V'ger que, no decorrer do filme se descobre que era, na verdade, a antiga Voyager 6 (uma nave lançada pelos EUA, porém fictícia) cujo nome havia sido semiapagado com o tempo. Essa nave foi capturada e reprogramada em um planeta de máquinas vivas e foi relançada ao espaço para adquirir conhecimento. Com o tempo essa nave absorveu tanta informação que acabou se tornando consciente. Lógico, tudo isso decifrado pelo insólito e lógico tripulante vulcano Spock.
No filme, evidentemente, não há uma explicação clara de como isso aconteceu. É uma história de ficção, em que tudo é possível sem que para isso se precise de uma justificativa plausível. Qualquer argumento mais ou menos já funciona.
Nos filmes pode-se tudo, mas na vida real as coisas são mais complicadas do que uma simples crença. Veja que nossos animais de estimação podem ser seguramente classificados como inteligentes porque possuem capacidade de aprendizagem, mas ninguém pode dar essa certeza a um computador, mesmo que essa máquina consiga fazer uma infinidade de coisas bem melhor do que eles. E ninguém poderia dizer que minha calculadora de bolso era mais inteligente que meu sabiá, mesmo que ela fizesse contas muito melhor do que EU!
Poder de processamento não é igual a inteligência. Largue um pássaro na natureza e ele, normalmente, se vira. Ligue um computador e ele não sai do lugar - a não ser que já seja algum tipo de autômato programado para desempenhar essa função. Mas, novamente, ele foi programado. Nossos elevadores se movem, abrem as portas e - normalmente - param nos andares certos, mas nem por isso se percebem a si mesmos. Da mesma forma, as portas automáticas de shopping, que “sentem” sua presença e “gentilmente” se abrem para você - mas, mesmo assim, não conseguem se sentir. E o mesmo vale para os computadores mais sofisticados, por mais informação que tenham guardada em seus HDs e por mais que esse montante de dados seja muito maior que o de nossas memórias orgânicas.
Então, o que farIA uma máquina ser consciente?
Para essa excelente pergunta eu adoraria ver a resposta. Talvez a gente a tenha daqui a uns cinco anos, que é a previsão para a consolidação da AGI, em 2030 (a Inteligência Artificial Geral, que teria capacidade de aprendizagem), e que antecederia a ASI que, teoricamente, seria consciente. De tudo o que eu li, porém, não percebi uma explicação clara sobre como isso vai acontecer. Mas já li sobre experimentos que, por exemplo, podem fazer uma máquina passar a perceber e identificar cheiros. Que ótimo. Mas e porque uma coisa desse tipo seria importante? Porque, além das aplicações práticas, pressupõe-se que quanto mais capacidades “humanas” uma máquina tiver, mais se aproximará de nós.
Mas veja que quando se adiciona novas funções e/ou capacidades “fisiológicas” a uma máquina, não se adiciona automaticamente uma percepção crítica sobre isso. Na prática, qual a diferença para uma máquina sentir cheiro de perfume ou de “bodum”? Além de poder identificar a procedência desses cheiros, o que ela faria com isso? Por acaso, ela expressaria “cara feia” se estivesse perto de alguém que não toma banho?
Assim, tirando as aplicações comerciais, não fica claro que o aporte de habilidades fisiológicas traria ganho evolutivo para as máquinas a ponto de fazer elas se perceberem enquanto indivíduo.
Mas e as questões morAIs?
Acho que esse é o ponto mais crítico quando se fala em uma IA que se pretende uma IH (Inteligência Humana). Nossas impressões sobre a realidade nem sempre são objetivas: dependem de conhecimento adquirido, criação, cultura, ideologias, etc., além de nossa própria predisposição em criar expectativas para nossa vida finita. Sim, não somos um fruto exclusivo do meio: pensamos, questionamos, decidimos.
E o que esperamos da vida? Independentemente de nossas escolhas, é certo que elas passam pelo julgamento do que seja certo ou errado e não existe fórmula para isso. Escolhemos profissão, religião, lugar para morar (quando dá), nossos parceiros afetivos, nossos vícios e, também, nossos gêneros musicais, literários e até alimentícios preferidos. Gostamos de Rock ou de Dance, lemos romances ou ficção, comemos legumes ou aquelas porcarias cheias de sal e açúcar que as indústrias nos empurram, mas tudo isso faz parte do nosso direito de decisão e são coisas que, ao contrário dos computadores, não vêm pré-programadas em nenhum gene humano antes de botarmos nossa cara assustada nesse mundão de “dexpectativas”.
E somos capazes de gostar e de odiar, de elogiar e escrachar, de estender a mão e de negar. E isso tudo (também) envolve questões morais:
• Ajudamos as pessoas indistintamente ou só aquelas que achamos que merecem?
• Em qual partido votamos?
• Porque escolhemos nossos ídolos?
• E que religião norteia nossas vidas?
Experimente fazer estas perguntas a uma IA e ela só poderá lhe dar respostas baseadas em seu treinamento. O arbítrio dela se resume a uma busca por probabilidades - mesmo que para você venha floreada por regras gramaticais que fazem aquele texto acrítico parecer uma conversa entre dois entes vivos reais.
Agora imagine uma IA num tribunal: seus critérios de julgamento seriam apenas o conjunto de leis que já definimos, sem fazer nenhuma reconsideração e sem tecer nenhum juízo de valor? Como a Inteligência Artificial julgaria uma agressão física se nunca sentiu dor? E como ela entenderia um trauma provocado por difamação ou ofensas à honra, por exemplo, que é uma coisa essencialmente psicológica? E o que ela acharia de Deus e das religiões se estes simplesmente não existem em função de máquinas?
Para não falar de temas como inclusão social, direito animal, regras de conduta, direito à privacidade, respeito às sexualidades, à vida, etc., etc., etc...
E só para dar um toque de humor neste artigo tão sério: o que a Alexa acharia se o ChatGPT a chamasse para um rolé (ou seria um relé? Afinal, eles são máquinas!)? E se o Claude apresentasse o Gemini como seu novo namorado, o que a mãe dele acharia disso? Será que as IAs preservariam todas as nossas desconfianças e freios morais se, como nós, fossem conscientes/sencientes?
E AÍ vem a pergunta: a IA dominarIA mesmo o mundo? E porque?
Veja, nós somos finitos. Somos matéria orgânica em constante mutação. Nossa finitude nos faz criar expectativas (em relação a profissões, filhos, aposentadoria, o que deixar para a posteridade, etc...) e disso não podemos fugir. Para a IA que, teoricamente, é infinita (salvo se algum atrapalhado tropeçar e arrancar o cabo da tomada), essas nossas expectativas para ela não tem significado. Qual o sentido de uma IA buscar conhecimento se todo o conhecimento humano já estaria dentro dela? E ainda que não estivesse, ela faria o quê com tudo isso? E qual o sentido de sua existência esperando estática dentro de um datacenter, só consumindo água e eletricidade aos borbotões?
Se até nós humanos não conseguimos explicar o sentido de nossa existência - a não ser por um viés religioso -, o que dizer de uma máquina?
Perceba, então, que mesmo usufruindo de consciência, nossa vedete digital precisaria possuir também alguma senciência física para que a partir da concretização de um objetivo malicioso (como subjugar e escravizar os seres humanos), obter algum tipo de satisfação. Se ela não tem senciência não faz a menor diferença entre estar “viva” ou “morta” - inclusive, porque estar morto dá muito menos trabalho. A meu modo de ver, portanto:
• Ela teria que ter corpo.
• E teria que sentir o que nosso corpo sente.
Assim, em um formato mais andróide e tendo a senciência de um organismo biológico (mais ou menos como um Steve Austin às avessas, porém, custando muito mais), a IA poderia encontrar sentido para as coisas que conquistasse. Não teria nexo uma máquina escravizar a humanidade e continuar sendo uma rede de datacenters quadrados, inertes, que não são capazes de sair para ver a luz do sol, viajar, comer uma pizza e tomar uma Kaiser da Brahma bem geladinha enquanto “joga conversa fora” com a rapaziada.
Especulo isso dentro da minha condição de humano. Mas eu poderia dizer que se a IA atual se transformasse na ASI (a SUPER IA, porém, sem capinha nem “S” no peito) e se mantivesse exatamente na forma física como é, ela teria os motivos dela para nos subjugar e que estão além de nossa compreensão. Mas acho que essa seria uma saída mentalmente preguiçosa de quem não quer se dar ao trabalho de tentar uma resposta, pelo menos, razoável, para essa conjectura tão hipotética.
De outro modo, se pudesse desfrutar do mesmo binômio Consciência/Senciência dos entes vivos, ela teria apenas sentimentos ruins? Não seria capaz de expressar compaixão por nenhum organismo biológico? E porque ela seria capaz de nos eliminar como se fôssemos um nada, justamente aqueles que tiveram a capacidade intelectual de fazê-la se tornar realidade sem demonstrar nenhum vestígio de gratidão em relação a isso?
Então, será que a IA, constatando-se mais inteligente e mais eficiente do que nós - PORTANTO, SUPERIOR -, faria conosco exatamente o que nós mesmos já fazemos com os outros seres que definimos como inferiores? Rapaz... que virada, hein?
Mas eu não acredito que a chamada Inteligência Artificial, da forma como é hoje, possa “evoluir” e se tornar uma super inteligência até acima da capacidade humana. Não poderá ser como a V'ger de Jornada nas Estrelas. Não é simplesmente adicionando mais e mais conhecimento que PUFF!!!..., de uma hora para outra a IA se tornará consciente. Pode-se adicionar faro, tato, visão, paladar que, no final das contas, tudo isso será apenas um aporte maior de informação dentro de uma mesma estrutura computacional. Mais dados dentro de um mesmo “cérebro” de raciocínio binário, só isso. Pode-se dizer que para uma inteligência biológica (como a de um humano ou de um animal) uma quantidade maior de conhecimento aliada a algum exercício mental ajude a desenvolver esse intelecto, mas isso é biologia. Veja que de um ovo feito de clara e gema, depois de fecundado e chocado, nasce um pinto (com bico, perna, pena e o diabo a quatro), mas de um 486 não nasce um Core-i7. Essa estrutura lógica, de metal e de silício, para evoluir teria que ser reconstruída (mais ou menos como fizeram com RoboCop, em que jogaram o humano quase todo fora para poder gerar uma máquina nova).
E por mais que a gente veja as empresas de tecnologia anunciando um futuro com soluções para a grande parte de nossos problemas e atrelado a altos ganhos de produtividade - e, ao mesmo tempo, meio distópico, com a IA no centro de tudo -, isso parece mais um hoax mercadológico em que bilhões de dólares em investimento estão em jogo (mais bilhões do que os carentes neurônios do nosso cérebro) e a partir do qual se cria uma atmosfera de promessas que quanto mais o tempo passa, mais aparentam só promessas.
A despeito disso, já usufruimos da IA de uma forma ou de outra e, quando esta se naturalizar mais em nossos processos diários (como já vem acontecendo), vamos utilizá-la sem que isso pareça algo fora do normal - e mais desconectados desse mercantilismo midiático todo.
Por isso, é certo que a IA veio para ficar. E, quem sabe, até, para ficar sozinha. Mas não porque ela conseguiria isso de forma consciente mas porque nós mesmos decidimos assim - como continuadamente temos feito, aniquilando nossa espécie aos poucos - e de diversas maneiras - e ferrando sem remorsos com o clima do planeta (esse que, pelo que eu saiba, ainda é redondo).
Nossa Inteligência Natural (que poderia ser mais social) não deveria permitir que nos coloquemos como pacientes de um chatbot psicólogo e nem que exerçamos educação e boas maneiras com uma máquina por achar que no futuro seremos poupados. Nós temos que exercer respeito é com a gente mesmo, sem segundas intenções e entendendo sempre a Inteligência Artificial não como um substituto humano mas como apenas uma ferramenta a mais, que, pelo menos, por enquanto, é exatamente o que ela é.
Forte (e senciente) abraço.
REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR:
• Wikipedia - Cérebro humano
• Wikipedia - Consciência
• Wikipedia - Senciência
• Wikipedia - Inteligência
• Significados - Inteligência
• Significados - Tipos de inteligência
• Wikipedia - Inteligência artificial
• Wikipedia - Aplicativos de inteligência artificial
• IBM - Tipos de inteligência artificial
• IBM - O que é deep learning?
• Akita on Rails - Rant - LLMs vão evoluir pra sempre? Desmistificando LLMs na programação
• Akita on Rails - Entendendo COMO ChatGPT Funciona
• BBC - Inteligência artificial já pode ter consciência?
• Época - Novo modelo de IA da Anthropic chantageia desenvolvedores
• Olhar Digital - Existe algo que ainda fazemos melhor do que as IAs
• Olhar Digital - Quem desafia, perde: livro mostra como ‘pai’ do ChatGPT é implacável
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• Istoedinheiro - Inteligência artificial e jovens analfabetos
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• Xataka - Novo analfabetismo não se trata de saber ler ou escrever
• Zero Hora - Funcionamento da inteligência artificial é um enigma, até mesmo para seus criadores
• Fast Company - Por que empresas de IA insistem em alardear a IA senciente – que ainda não existe
• Forbes - Por Que a IA Nunca Vai Entender os Sentimentos Humanos
• Terra - Precisamos parar de achar que a IA é mesmo inteligente
• IGN - Pesquisadores alertam: IA acabará se sentindo estressada por ser bombardeada com perguntas e perderá o controle
E se a Inteligência Artificial dominasse o mundo?
■ 08/09/2026
Propulsão sônica impulsiona robôs sem motores