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■ 18/05/2025 • Mundo animal | Sociedade • 1074 hits • 0 comentários ⇣
Quando eu era adolescente, ia regularmente às lojas de vinil do shopping Iguatemi para olhar os LPs (sim, ainda alcancei a velha guarda da tecnologia sonora) e, geralmente sem grana, (quase) nunca comprava nada. Só olhava mesmo. Mas era uma das maneiras possíveis de me familiarizar com o que havia disponível no mundo Rock.
E, diga-se de passagem, adorava ver as capas. Sempre me passavam a sensação do som que poderia estar contido naquelas bolachas pretas, só de vê-las. E as de Metal (Heavy Metal), em geral, eram sempre as mais impressionantes. Mas, mesmo depois de ver tantas capas insólitas feitas em estilos artísticos diversos, uma, em especial, ficou gravada em minha mente até hoje: era a capa do álbum “Born Again” do Black Sabbath. Curiosamente, passei anos sem conhecer o som daquele disco até a chegada da internet... e as coisas que a gente gostava de ver e ouvir se popularizarem pelo Youtube.
Mas falando (quase) sério, a capa em questão era nuito “graciosa”, um mimo: ilustrava um bebezinho vermelhinho todo fofinho, em auto-contraste, com dentinhos, olhinhos e... chifrinhos de satanás! Sim, era um “reborn” de demônio! Para quem não conhece o álbum, aqui vai o link (aproveite para ouvir também). Era uma ilustração contundente, meio mística e, ao mesmo tempo, amedrontadora - afinal, se tratava do bebê do “coisa ruim”. Depois dela, tudo o que eu passei a ver e ouvir na minha vida que tivesse a palavra “born” já me remetia àquela capa.
Aquilo, porém, não me traumatizou. Fiquei apenas com a imagem de “Born Again”, aquele petardo gravado com Ian Gillan nos vocais (e que vocais), fixa na minha mente - assim como acontece com várias experiências que a gente passa no decorrer da vida. Tudo dentro do seu normal.
Mas quando eu achava que já tinha visto de tudo, eis que agora, em 2025, me apresentam uma coisa chamada “bebê reborn”. Não é preciso dizer que a capa do disco do Sabbath me veio logo à cabeça. “Reborn” quer dizer “renascido” e “Born Again”, “nascido de novo”, na essência, a mesma coisa. Nunca tinha ouvido, porém, este termo (reborn) associado a bebês. No máximo, “newborn”, que significa “recém-nascido” e que é uma modalidade de fotografia artística feita com... recém-nascidos.
Só que por já saber o conceito do termo, senti uma certa dificuldade de entender porque um boneco de borracha poderia representar algo renascido e porque, de um momento para outro, surgiram aqueles vídeos de “mães” cuidando desses objetos como se fossem crianças de verdade. Mas como a curiosidade é a mãe do conhecimento (e a preguiça, mãe da ignorância), fui pesquisar.
E para minha surpresa, acabei descobrindo que “reborn” se refere a uma arte de refinar bonecos, de sofisticar sua estética para que eles se pareçam com bebês reais. A ideia de reborn, portanto, simboliza o “renascimento” de um bebê a partir de um boneco de silicone ou vinil com o uso de cabelos e tintas especiais, fabricado ou já adquirido pronto, porém, sem o apuro estético que o caracteriza. Contrariando a ideia de que todo bebê tem cara de joelho, reborns têm características físicas próprias pois muitos deles são produzidos sob encomenda. As mulheres que recriam esses bonecos artisticamente são chamadas de “cegonhas”.
Os sites que pesquisei trazem informações meio parecidas entre si sobre a atividade: que a arte de refinar a estética de bonecas já vinha desde a 2ª Guerra Mundial e que nasceu, primeiramente, no Reino Unido e nos Estados Unidos (Reborn in the U.S.A., diria Bruce Springsteen), e que a partir da década de 1990 ganhou corpo pelo mundo.
Mas o mais curioso de tudo: segundo esclarecem, os vídeos de reborn são mais voltados para crianças e adolescentes, assim, quando vemos aquelas pseudo-mães cuidando de seus pseudo-bebês, na verdade estamos vendo pessoas representando e que, em geral, não levam a sério a ideia de que aquele boneco para elas é um ente vivo real.
Fiquei aliviado. Passei a reacreditar na humanidade. Minha crença já havia se perdido uma vez quando, na década de 1990, haviam lançado o “Tamagotchi” (lembram dele?), que era uma maquininha que funcionava como um bichinho de estimação e que o dono tinha que cuidar dando comidinha e carinho, tudo virtual, para que ele se mantivesse vivo. Se parasse, morria. E não funcionava mais. Que época...
Leis
Mas o que me levou a escrever este texto mesmo foram algumas notícias que começaram a aparecer em meu smartphone sobre leis e casos relacionados a instituições de saúde envolvendo bebês reborn. Calma, eles não entraram para o mundo do crime. São apenas reborns e não cyborgs (pelo menos, por enquanto). Ainda não pensam sozinhos e, ao que parece, é aí que reside o problema.
Muito além dos vídeos que simulam atividades reais (chamados “role play”) feitos com os reborns, há pessoas que estão usando-os na vida real. Sim, circula na mídia casos em que mulheres utilizaram esses bonecos em benefício próprio para furar filas de atendimento, para conseguir assento em transporte público e, pasmem, para tentar atendimento para os próprios “bebês” em unidades de saúde pública.
Para bebês que não pensam, não riem, não choram (e se não choram, não mamam), enfim, bebês que são entes inanimados, não faz sentido tê-los inseridos em determinados contextos. Aproveito, então, para falar sobre duas coisas que li e que não concordo:
1 - Que existe uma tendência de as pessoas acreditarem que são reais tudo o que veem em vídeos pela web - como se isso fosse, na essência, algo errado.
Eu não costumo acreditar em tudo o que vejo, mas é claro, acredito em algumas coisas. Como acreditei que as pseudo-mães de reborn se relacionavam com seus “bebês” como se fossem reais - até pesquisar e ver que não era bem assim. Se você cria um vídeo de simulação para parecer real, é lógico que pelo menos uma parte daqueles que assistem, vai entender como real. Mérito para quem fez a simulação, pois conseguiu convencer. Só não pode reclamar depois se for vítima de críticas. Nesse caso, é mais seguro deixar explícito na apresentação que é apenas uma simulação. O que não parece honesto é deixar que cada um interprete à sua maneira (pois assim se consegue mais views) para depois demonizar aqueles que reprovam.
2 - Que não podemos julgar pessoas que tratam seus bebês-bonecos em público como se fossem reais.
Cada um tem o direito de fazer o que bem entende sobre sua vida (inclusive, se matar, como eu gosto de dizer). E, por tabela, tem o direito de tratar reborns em público como bebês reais. Esse não é o grande problema. Quando perdemos nossos entes queridos, guardamos pertences que nos remetem a eles como fotos, roupas e outras coisas. Às vezes, até beijamos essas fotos como se estivéssemos em sua companhia. Tudo muito normal. Nos reservamos o direito de simular esse momento só nosso. Mas temos ciência que são objetos, que não são nossos entes de verdade.
Assim, discordo que mães de reborn possam ter algum direito de acessar uma instituição de saúde real, por exemplo, - ocupando o tempo de profissionais que estão ali para atenderem seres vivos - “apenas” porque tem um trauma psicológico. Se esse trauma é verdadeiro, então ela tem que se dirigir a um profissional que a trate e não a um profissional que vai cuidar de um problema imaginário em um bebê que não tem alma. E isso não é frieza. É compaixão e respeito por pessoas que também têm seus problemas e que, à vezes, esperam meses para conseguir um tratamento público (para, quem sabe, terem o direito de continuar vivas) para depois serem “atravessadas” por uma mãe com um bebê de mentirinha. Tudo tem seu limite.
E só para arredondar o raciocínio acima: eu já tive depressão duas vezes e também já pensei em me matar. Mas eu sabia que o problema era meu, não dos outros. Não tinha que ser público. Não havia inconveniente que os outros soubessem, mas ninguém tinha a obrigação de, além de ter que cuidar dos seus próprios problemas, ter que se preocupar também com os meus. Nós, humanos, temos que aproveitar nossa racionalidade (que sempre fazemos questão de dizer que é a mais avançada do reino animal) para ajudar a nos recuperar. Ainda que não seja fácil, devemos assumir essa responsabilidade. E outra: luto tem que ter prazo de validade. Quando apoiamos uma pessoa para que ela possa ter tempo para, indefinidamente, curtir seu luto, estamos ajudando ela a perder o melhor que existe na vida: A VIDA.
E eu te garanto: se, anos atrás, eu tivesse deixado minha depressão me vencer, você não estaria lendo este texto aqui hoje.
Mas voltando às leis, já foram criados, pelo menos, três PLs (Projetos de Lei) que visam regulamentar a utilização de reborns em instituições públicas de saúde, e que, inclusive, determinam não só o controle de acesso das pessoas que se identificam como mães desses bonecos, como, em certos casos, a aplicação de multa. Veja em que situação chegamos. Estes pseudo-babies que, quando surgiram, se propunham, na essência, a serem objetos de arte realista semi-terapêuticos, agora, envolvidos com questões legais.
Mas não é por isso que quem se identifica com esse tipo de arte deve deixar de adquirir o seu. Este é um mercado, hoje, milionário e que está em todo mundo, que envolve fabricantes, distribuidores e digital influencers, além dos colecionadores. Seus valores variam desde algumas centenas de reais até vários milhares. O problema, porém, não é o objeto em si, mas o que é feito com ele e que, no final das contas, é uma responsabilidade de todos que se envolvem com este mercado.
Adquirir objetos, utensílios e máquinas que farão parte de nossas vidas é o que há de mais natural em nossas sociedades capitalistas. Eu, por exemplo, tenho uma coleção de lindas guitarras. Outras pessoas colecionam carrinhos antigos e outras, tampinhas de garrafa, e por aí, vai. Só que no meu caso, eu não acho que minhas guitarras se tocam sozinhas, afinal, elas não têm vida. Elas precisam de mim para funcionar. E, indo mais longe, há pessoas que compram e têm relações sexuais com certos objetos. Mas será que elas acham mesmo que estes “brinquedinhos” substituem as capacidades humanas?
Repense seu reborn
Na década de 1980, o cantor Eduardo Dussek lançou uma música intitulada “Rock da Cachorra”. Essa música foi um grande sucesso de rádio e todos nós brasileiros cantávamos e nos divertíamos com ela. Hoje, com a quantidade de donos de pets que existem atualmente no Brasil (grupo do qual eu já fiz parte várias vezes), ela já estaria sendo enquadrada na condição de “politicamente incorreta”. Isso porque, no contexto geral (e a despeito do tom irônico), a mensagem da canção sugeria que quem possuísse seu animal de estimação, por uma questão de humanidade, o trocasse por uma criança. Hoje, por uma questão de humanidade, a gente entende que isso nunca seria necessário porque conseguimos compreender que os dois podem conviver perfeitamente bem. Então, ao invés de “trocar”, talvez, a ideia correta fosse “juntar”.
Para quem já tem um animal - que é um ser inteligente e capaz de corresponder afeto -, desprezá-lo, seja em nome de quem for, se traduz, pura e simplesmente, numa enorme crueldade. E para quem entende amar, sabe que em um coração aberto sempre cabe mais um (mesmo que, financeiramente, fique mais caro. Mas com um pouco de vontade todo mundo se vira).
A mesma ideia, no entanto, não é necessária quando se trata dos já polêmicos bebês reborn. Nas ONGs que se dedicam ao cuidado e à adoção animal, há milhares de cães e gatos por todo o Brasil à espera de um lar. Garanto que esses animais suprem bem a necessidade de uma companhia extra. Quem tiver a capacidade de abstrair a ideia do filho que não teve vai entender que, ao contrário de bonecos não-senscientes, existem seres biológicos que adorariam ser cuidados e tratados... como filhos. Já para os citados bonecos de silicone isso não faria a menor diferença.
E conforme eu falei antes, todo mundo faz de sua vida pessoal o que bem entender. Inclusive comprar reborns. E cada um tem o direito de adquirir quantos bonecos quiser e enfeitar seu quarto ou sua sala com eles, afinal, são objetos de arte. Daí trazê-los inadequadamente para nossa dimensão humana acaba fazendo com que a gente se pergunte até que ponto conseguimos lidar com nossas próprias criações.
E, finalmente, às mamães que querem amar e ser amadas, arrisquem experimentar algo que concretamente as faça se sentir “born again” (nascidas de novo):
Troque seu bebê reborn por um cachorro pobre,
Seja poodle, vira-lata, caramelo ou buldogue,
E deixe na história de sua vida uma notícia nobre.
Um grande aubraço.
O preconceito que você sofre não lhe redime do preconceito que você exerce
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