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■   05/04/2026  •  Política  •  344 hits  •  0 comentários ⇣

Porque não acreditar em candidatos antissistema

Na adolescência dos anos 1980/90, naquele período recém-saído da ditadura militar, o ato de ouvir Rock and Roll, como eu e muitos amigos faziam, vinha, quase sempre, acompanhado da cobrança de uma postura mais politizada. Essa quase obrigação nos impulsionava a não aceitar como fato tudo o que nos chegava - e que é, geralmente, o que acontece quando a mente se acomoda. E o envolvimento com o gênero - numa época em que não havia internet e essa facilidade de acesso à informação que existe hoje - me fez, por tabela, conhecer e me relacionar com muita gente fora de meu padrão estético-comportamental de então. 


Conheci rockers, technos, headbangers, rockabillies, dentre diversos outros e, também... punks. Sim, na Bahia havia punks (e ainda há). Punks que viviam uma ideologia que ia muito além do puro visual característico, com cabelos espetados, roupas rasgadas e piercings pelo corpo - estética que depois foi apropriada pelo sistema e se transformou em moda - porque virou modinha aparentar rebelde -, o que acabou originando a conveniente expressão “punk de boutique” e que teve como um de seus representantes mais conhecidos o cantor inglês Billy Idol.


Meu visual, mais diferenciado dos punks, se resumia a algumas roupas pretas, calça desbotada e um enorme cabelão de metaleiro, mas, mesmo com essa aparência singular à época, me relacionava relativamente bem com roqueiros de diversas vertentes, inclusive, porque naquele tempo, não existia muita divisão. Hoje, o mundo se fragmentou em vários pedacinhos de populações separadas por gênero musical, bairros, torcidas esportivas, ideologias políticas, etc. 


Mas foi nesse período que acabei tomando conhecimento do termo “ANTISSISTEMA”, utilizado pelo movimento punk e que, segundo a Wikipedia, surgiu ainda no século XVIII e que, hoje, foi absorvido pelo senso comum sem que as pessoas tenham uma noção precisa de seu conceito, mais ou menos como aconteceu com a palavra “PUNK”, que aos poucos se diluiu, perdendo seu significado original de “podre” para se tornar algo como “incrível” ou “fora do normal” (“Essa festa tá punk”, “Sua roupa tá punk”, “Esse rango tá punk”, etc.). 


E foi com esse movimento que tive o primeiro contato com pensamentos e palavras de ordem como “Não sustente parasitas: vote nulo!”, “A culpa é do sistema!” e “Foda-se o sistema!”. Na época, porém, não tinha uma noção precisa do que seria o sistema, mesmo, claro, já tendo visto o termo ser utilizado em situações diversas. 



Mas, então, o que seria Sistema? 


SISTEMA tem uma multiplicidade de definições e se aplica a uma diversidade de coisas que já conhecemos e com as quais nos relacionamos diariamente como um sistema operacional (Windows, Mac, Android), um sistema web (tal qual um site dinâmico de notícias - G1, UOL, CNN), um blog (Contraponto.net) ou um comunicador instantâneo como o WhatsApp. O sistema solar, nosso sistema nervoso e a taxonomia também são sistemas, porém, de forma geral, um sistema pode ser entendido como um conjunto de elementos que interagem entre si e de forma organizada para alcançar um determinado objetivo. 


Mas o sistema que nos interessa aqui vai além e diz respeito ao nosso próprio ambiente de vida. Esse sistema é a nossa sociedade, que pode ser considerada um sistema social. Nela, os indivíduos interagem exercendo funções específicas e, em geral, subordinados a regras de convivência, leis e costumes. E ainda podemos dizer que além de indivíduos, existem as instituições públicas e/ou privadas que ajudam a suportar sua subsistência de forma estruturada. Destarte, quando exercemos nossas atividades (entretenimento, trabalho, alimentação, saúde, etc.), o fazemos usufruindo do que o sistema nos oferece, ao mesmo tempo, que ajudamos a fomentar sua continuidade e seu desenvolvimento. Simultaneamente somos usuários, agentes e vítimas desse complexo sistema social. 


Então, a gente pode pressupor que, na essência, tudo o que fazemos está subordinado ao sistema: dormir para trabalhar no dia seguinte, trabalhar para ganhar salário, ganhar salário para nos divertir ou cuidar da saúde... enfim. Fazemos coisas que podem ser completamente independentes de um sistema - como nos alimentar - mas que, dentro da vida que dispomos, acabam, invariavelmente, se inserindo nele. Vivemos em um sistema sendo parte do sistema (provavelmente, até o dia de morrer). 


E, para finalizar o raciocínio, podemos dizer que há sistemas de produção (como capitalismo e socialismo) e sistemas políticos/de governo (como presidencialismo e parlamentarismo), sendo que um tipo (produção x político) não anula o outro. 



E o que seria Antissistema? 


Antissistema pode ser entendido como uma corrente política que se opõe ao sistema de produção vigente (capitalismo ou socialismo) e que, pelo que pesquisei, me parece a definição mais coerente. Mas, num conceito mais livre, designaria também uma corrente de pensamento ou pessoa que não se enquadra ou se resigna a um sistema político/governo qualquer como o presidencialismo, parlamentarismo, etc., mas que, enquanto indivíduo, pode subsistir à margem dele (lógico que nunca totalmente fora) e que nega para si a perspectiva de se adequar e consumir tudo da forma que lhe é estabelecido. 


Antissistema, então, representa a negação em relação à forma como a sociedade vigente se estrutura e se relaciona com seu capital humano. Não seria, portanto, apenas uma oposição ao grupo ou classe política dominante, caso contrário, todos os políticos ou candidatos de oposição seriam considerados antissistema. 



Mas se somos parte do sistema, como podemos ser antissistema?


O fato de estarmos dentro de um sistema não implica que concordemos com ele. Dessa forma, podemos existir em um sistema de produção/sistema político/ou de governo que seja e lutarmos pela sua mudança para o perfil que consideramos mais justo (ou vantajoso, a depender de como cada um enxerga isso). 


Assim, um socialista dentro de um sistema capitalista como o nosso, pode ser considerado um indivíduo antissistema e vice-versa. Essa, para mim, seria a forma mais correta de aplicação do termo. 


Só que essa percepção foi deturpada a partir das eleições de 2018, período em que Jair Bolsonaro concorreu à presidência da República surfando na onda do antipetismo pós-governos Dilma. E ocorreu novamente, em 2022, desta vez, com a candidatura do empresário Pablo Marçal (concomitantemente à candidatura de Bolsonaro), que também foi visto, erroneamente, por eleitores e pela mídia, como tendo um perfil antissistema. 


A aplicação do termo para esses candidatos, porém, não fazia sentido porque, tudo o que eles não almejavam era cambiar o sistema. Pelo contrário, o ideia era apenas ser eleito, trocando o governo corrente mas mantendo o mesmo sistema, ou ainda, alterando seus aspectos ou atores para estar em conformidade com suas próprias expectativas. Não tinha quebra de sistema produtivo e nem nenhum tipo de revolução. Apenas a intenção de sair da cadeira de oposição e se tornar situação. 


Perceba que Jair Bolsonaro sempre viveu às expensas do Estado. Quando ainda jovem, estudou e se formou pela AMAN (que pertence ao Estado). Depois, entrou para o Exército (Estado), em seguida se aventurou pela carreira política (cujos salários são pagos pelo Estado) e ainda direcionou os filhos para o mesmo caminho. E, para não fugir à regra, hoje está preso numa cadeia mantida pelo... Estado. Não dá, então, para achar que uma pessoa que se utilizou tanto da máquina estatal quisesse realmente alterá-la sabendo o quanto lhe beneficiou. 


O caso de Pablo Marçal foi diferente. Depois de exercer atividades diversas e de idoneidade questionável e irregular lançou-se candidato sem, no final das contas, ter o direito de concorrer porque suas candidaturas foram impugnadas. Mas se apresentava como aquele que veio quebrar a ordem vigente, mais ou menos como ocorreu na primeira candidatura de Bolsonaro, com a diferença que Marçal já era um milionário. Mas um milionário que se aproveitava da mesma linha de ataque, abraçando o público conservador e embutindo nele a ideia de ser o trator de uma mudança social mais radical (mas que nunca aconteceria). 


Então, eu pergunto: qual o sentido de ser um antissistema depois de já se ter usufruído sobremaneira desse sistema? Depois de já ter sua vida estabilizada mediante o uso (por vezes, parasitário) desse sistema, qual o sentido de negá-lo? Tomando consciência dessas coisas a gente percebe o quanto é falso quando rotulamos candidatos acreditando (ou querendo acreditar) que eles são a representação dos nossos ideais. 


Assim, se revela uma balela quando surgem esses postulantes a presidente do quase nada, fazendo cara feia e vociferando aos quatro cantos como se fossem a solução para as distorções dos governos/administrações em vigor (mais ou menos como aconteceu com Fernando Collor, que só era conhecido em Alagoas, e que para os “antissistemistas” atuais poderia ser considerado o primeiro antissistema do Brasil). Uma farsa que alimenta as esperanças de eleitores descontentes e que, claro, não vão gastar seu tempo pesquisando sobre sistemas políticos, sobre esses candidatos e nem tentar encontrar alguma coerência nessa questão. Mais fácil acreditar: gasta-se menos neurônios e mantém-se a esperança da tal mudança viva. 


E como não aparecerão candidatos do movimento punk porque eles são ou anarquistas ou apolíticos (mesmo tendo engajamento social), a única esperança para quem almeja um antissistema para chamar de seu seria escolher entre algum candidato de extrema-esquerda que mudaria nosso sistema de produção de capitalista para socialista, por exemplo. Mas aí fica a critério de cada um. Você deve saber utilizar sua inteligência para tentar discernir sobre o que é real e o que não passa de uma fantasia maliciosa cujo protagonista tem apenas o objetivo de lhe tirar o que concederá a ele sua subsistência. 


Então, na hora de votar: consciência.
Não sustente parasitas. 


 


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