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■   21/03/2026  •  Política  •  457 hits  •  0 comentários ⇣

O escolhido do Messias

O bolsonarismo foi uma fase muito curiosa de nossa política brasileira. Ainda que existam outros adjetivos que eu e você  gostaríamos de classificá-la, ela, acima de tudo, era ilógica. Um, porque parecia ter acontecido meio de repente, surgindo de uma mistura de inconformismo, esperança cega e espírito vingativo, e dois, porque havia uma espécie de adoração por seu representante que, na prática, não demonstrava ser reflexo daquilo que pregava. 


Jair Messias Bolsonaro prometia ser o cara que iria nos livrar de toda aquela sujeira deixada pelos governos anteriores. Iria limpar o Brasil. Mesmo com sua imutável expressão irritadiça, era a pessoa que recuperaria os valores perdidos como a honestidade, a religiosidade, o altruísmo e, com isso, devolveria o poder e o bem-estar à população. Era a imagem do “Salvador”. Um salvador que, no final das contas, emplacou um governo obscuro e cercado de medos mas que, para quem o elegeu, era a certeza de que estava tudo mudando.


Para quem prefere acreditar dessa forma, Deus deu ao ex-capitão uma sublime oportunidade de poder comprovar seu caráter e eficiência enquanto chefe do executivo, que foi “agraciá-lo” com a presidência no período em que ganhou corpo no planeta a Covid-19. A fase da Covid foi uma prova de fogo para a grande parte dos líderes das nações. Uns souberam administrar muito bem (na medida do possível) a situação, enquanto outros, como no nosso caso, foram uma vergonha. Só para relembrar um dado, quando JB deixou o governo, haviam morrido no Brasil mais de 600 mil (uns 15% de um montante mundial de mais de 4 milhões). Números impressionantes de pessoas que morreram por quase nada. 


Eu faço questão de citar esse período porque, para mim, foi inadmissível a postura adotada pelo governo brasileiro atrasando a compra de vacinas deliberadamente e desconstruindo as medidas protetivas por simples (e absurdas) posições ideológicas. Quem estava vivo e teve acesso a meios de comunicação como TV e internet entende exatamente o que eu estou dizendo. Quem conseguiu não perceber isso eu suponho que: ou teve algum descompasso cognitivo temporário ou, realmente, preferiu fazer vista grossa ao que ficou óbvio para todos. Era a idolatria incondicional por quem se apresentava como a esperança e que, ironicamente, fazia troça enquanto uma parte da população morria. 


Eu, que à época trabalhava numa instituição de saúde, ficava impressionado com o fato de nela existirem bolsonaristas e, ainda, que estes não criavam uma correlação entre o fato de que o mundo inteiro (além da própria instituição) pregava as medidas protetivas (distanciamento, máscaras, etc.) enquanto que seu líder recém-eleito as desconsiderava evitando promover seu cumprimento tanto pela TV quanto em aparições públicas. Não à toa, passou-se a ver uma infinidade de notícias e vídeos falsos questionando as vacinas e os métodos de proteção, todos produzidos (não coincidentemente) pelo mesmo grupo que apoiava o Messias. 


E se tinha algo inacreditável naquele período foi a situação de que seus eleitores lhe depositavam uma confiança cega, a confiança em uma pessoa que claramente deixava transparecer uma falta de conhecimento mais profundo em tudo que abordava - o que incluía doenças, como a Covid. Algumas milhares, em consequência, pagaram com a vida.


Mas se a chegada de Bolsonaro ao poder representava, também (e estranhamente), o “resgate” do Cristianismo (coisa que nunca foi vedada por governo anterior algum e que, inclusive, teve apoio do governo Lula, que sancionou a Marcha para Jesus, em 2009), então, seria pertinente perguntar se suas condutas poderiam ser representativas das posturas de Jesus (sim, o Jesus da Bíblia, o verdadeiro Messias, filho de Deus). 


Alguém que se dizia conservador e representante da fé cristã poderia ter tido tanto descaso com a vida humana como naquele período da Covid? Jesus faria o mesmo em seu lugar? Ou teria prezado pelo bem-estar e salvação dos terrenos - como mostrado na Bíblia, acolhendo e perdoando os que se desvirtuavam?  


Enfim, nessa prova, Jair Bolsonaro não passou. E, surpreendentemente, a idolatria cega a ele também não. Sim, a invisualidade de milhões de seus eleitores se manteve e perdura até hoje na esperança de que, em algum momento, ele retorne mesmo depois de condenado - numa condenação que não aconteceu pelo descaso com a Covid, mas sim por tentativa de golpe de estado: a arquitetura de um plano para a eliminação de algumas vidas com a consequente retomada do poder que perdeu pelo voto direto. Inacreditável que isso tudo tenha partido de um suposto cristão. 


Mas isso só faz sentido quando se considera a idolatria desvairada, em que tudo é permitido em nome de um líder ou de uma ideologia que seja, mesmo que isso passe por cima dos valores que o próprio idólatra, curiosamente, diz defender. Não tem lógica. Mas qual adorador incondicional está preocupado com isso? Para o cego político, o que importa é a fantasia que alimenta, e sendo dessa forma não precisa de respaldo na realidade. Triste e não contornável. 


Pois bem, a idolatria que persiste, hoje se mantém representada pelos descendentes biológicos de Jair Bolsonaro. Ainda que alguns políticos fora de sua família quisessem surfar nessa onda conservadora (como herdeiros de seu espólio) e sugerissem a possibilidade de serem candidatos ao pleito de 2026, o próprio JB se encarregou de “cortar esse barato”. Como? Nomeando um filho seu como representante direto. E o escolhido do Messias se chama Flávio Bolsonaro, que, aliás, é o único que, de fato, teria capacidade para assumir seu lugar.  


Eu afirmo isso porque Flávio na forma como se porta aparenta ter um intelecto superior ao do pai e, efetivamente, demonstra ser mais moderado (fato que comentou em uma entrevista, insinuando-se, inclusive, mais equilibrado - e deixando no ar que o pai não dispunha muito dessa faculdade, coisa, aliás, que a gente sempre desconfiou). 


Nesse momento, é tudo o que o Bolsonarismo queria (ou precisava, porque querer mesmo, eles queriam o retorno do pai). Mas Flávio, hipoteticamente, veio preencher a lacuna deixada por Jair no que diz respeito justamente à sua falta de qualidades: com conduta vingativa, desagregadora, repetitiva, sem compaixão, desaculturada, desinformada e, somando a tudo, um comportamento não-cristão, Jair sempre demonstrou sua falta de paciência e segregacionismo com posturas, costumes e pessoas (coisa que um cristão de verdade não deveria alimentar) e isso quem diz não é minha implicância, mas os fatos. 


Mas se Flávio veio ser realmente o Bolsonaro moderado (e que, eventualmente, se apropriaria do sobrenome, deixando Jair sendo apenas Jair), ao que parece, não terá uma atuação desconectada da figura paterna. Segundo o “número um”, caso seja eleito, subirá a rampa do Planalto ao lado do pai. Mas se Jair Bolsonaro está preso,  isso só poderia acontecer de uma maneira: após a posse, Flávio automaticamente concederia Graça a Bolsonaro pai. Seria, com certeza, uma das primeiras coisas que faria. E dentre essas, provavelmente estaria o Indulto aos apenados do 8 de janeiro. Esse seria o momento de constatarmos que pena e crime no Brasil são realmente coisas relativas, soando assim como uma questão de poder: pessoas com influência/status social, de uma maneira ou de outra, se safam. E com Jair livre e apenados despenados, o Bolsonarismo, pelo menos, simbolicamente, retornaria. 


Mas o que aconteceria, então, com o governo de Flávio? Seria um espelho das ordens do pai? Ou o primogênito teria realmente uma autonomia e independência para exercer o cargo? 


Enquanto não apresenta plano de governo, a expectativa é que teremos uma continuidade da “gestão” interrompida em 2022 (pelo voto direto e sem fraude, ao contrário do que sempre, e “religiosamente”, pregava Jair Bolsonaro). Até onde deixa transparecer, Flávio não aparenta ter alguma visão mais macro (como, aliás, o pai também não tinha) para ocupar o cargo. Se é para falar de direita, há outros nomes mais capazes do que ele - e que, inclusive, já ocupam cargos de gestão - para assumir a presidência do país. 


No final das contas, o que se pode presumir é que se Flávio ganhar, teremos um repeteco do governo Bolsonaro - que será contra as mesmas coisas de sempre (STF, comunismo, Lei Rouanet,  homo/transsexuais, preservação ambiental e aquelas coisas todas que enchem os olhos da direita mais radical) e a favor das mesmas coisas de sempre (pátria [mesmo com a invasão do Congresso], família [com ênfase na dele] e governo americano [com levantamento de bandeira dos EUA e tudo]). E por falar nisso, o que eu mais temo é que, como acontece agora no (des)governo Trump, essa turma aproveite para “passar a boiada” de uma maneira mais radical e explícita. Sendo eleitos pelo povo (nem que seja por um pouco mais da metade da população votante) têm o aval para seguir em frente. Estarão com toda a razão e estará tudo certo (pelo menos, no início, porque no início todo governo é uma maravilha). 


O primeiro governo Bolsonaro foi só um aperitivo. Esse, desta vez, promete não só ressuscitar uma parte das figuras que ficaram apagadas por uns anos mas, também, ser mais obscurantista e preocupante. Flávio, nas pesquisas, aparece, em geral, bem colocado, mas a gente não sabe como vai ser o desenrolar das campanhas eleitorais. Como sempre, aparece muito podre para todo lado e as opiniões públicas podem mudar. Então, vamos precisar tentar nos unir nas urnas para evitar o que pode vir de pior. 


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