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■   01/03/2026  •  Sociedade  •  488 hits  •  0 comentários ⇣

O assassinato de Marielle teve marcador social?

Antes de mais nada, é bom frisar o quanto foi satisfatório saber da condenação dos mandantes (além da dos executores) do assassinato de Marielle Franco. Primeiro, pelo fato de entender que Franco tinha representatividade na política local (Rio de Janeiro) e, segundo, porque crimes bárbaros, obrigatoriamente, devem ter punição. 


Eu já tinha escrito um artigo, em 2020, sobre a vereadora, representatividade e o quanto, às vezes, ter visibilidade incomoda. De lá para cá, seis longos anos se passaram até o fechamento desse caso. Ainda que eu ache que tivessem mais personagens envolvidos nesse processo (e que por motivos que a gente não sabe não vieram à tona), pelo menos, ficamos com a impressão que nem sempre a impunidade vence. 


Marielle era do gênero feminino, negra, de origem humilde e homoafetiva. Quatro marcadores sociais que, em maior ou menor grau, predispõem o indivíduo alguma situação que envolva preconceito. A despeito de que a sociedade tem evoluído nesse quesito, volta e meia vemos casos que fazem a gente desacreditar nessa melhora e achar cada um age mesmo é por si e dentro de suas convicções. Exagero. 


Mas o que me levou a escrever este texto foi o fato de não concordar em como foi conduzida a percepção pública sobre esse crime - após essa condenação definitiva dos irmãos Brazão. Ao invés de se concentrar no fato real que levou à sua execução, o que se viu foram pessoas abordando características pessoais de  Marielle (os marcadores sociais) como se estas tivessem importância significativa para a justificação desse crime para os envolvidos. Não tiveram. 


Marielle, como é comum em políticos de esquerda, fazia denúncias. Além de se manifestar em defesa da parte da população mais carente e criar projetos-lei, políticos de esquerda costumam se posicionar de maneira contrária a possíveis injustiças cometidas por indivíduos ou empresários de conduta duvidosa e excessos institucionais.  


A vereadora, portanto, além de incomodar com voz, segundo se divulgava, atrapalhava os negócios do crime organizado. Resultado: foi morta com quatro tiros e, por tabela, ainda tiraram a vida de seu motorista, o Anderson, crime motivado por vingança e tentativa de calar quem se coloca como obstáculo ao “direito” do criminoso de manter seu negócio. 


Se Marielle fosse homem, branco e heteroafetivo, para quem já tem o costume de eliminar a vida humana, isso não faria a menor diferença. Para o assassino “profissional”, o que interessa é sua sobrevivência e seu direito de parasitar a sociedade produtiva tirando dela o que ele não gastaria seu tempo se dignando a fazer. Assim aconteceu, por exemplo, nos casos do assassinato de Chico Mendes, Bruno e Dom Philips e do indígena Paulo Guajajara. 


Estes crimes, em geral, motivados por interesses econômicos e relações de poder (leia-se o caso de Vinicius Gritzbach, envolvendo brigas, denúncias e muito dinheiro), não discriminam sexo, preferência afetiva, cor da pele, religiosidade, nem nada que o valha, salvo nas situações em que a visibilidade social da futura vítima tem uma importância mais relevante. Status social é um freio. Mas no caso de Marielle, ela estava começando na política. Não era prefeita nem governadora de estado e, tampouco, presidente(a). E a despeito de ter visibilidade no Rio de Janeiro, não tinha, necessariamente, em outros lugares. Eu mesmo conheci pessoas na Bahia que não faziam a menor ideia de quem ela era (apesar de terem acontecido manifestações até fora do país após sua morte, isso se deveu, principalmente, ao contexto, mais ou menos como no caso do americano George Floyd). 


Na verdade, o único marcador que poderia ser válido para analisar o assassinato de Marielle é a condição social - a de uma pessoa de origem humilde. Um indivíduo que não tem tanto status social e que, portanto, representa menos obstáculo para o desenrolar de uma investigação é um candidato mais fácil a se transformar em... não-vivo. 


Por isso, não faz sentido tentar “romantizar” as motivações para um crime tão brutal quanto esse como se os envolvidos se sentissem empoderados porque Franco era mulher e, portanto, mais vulnerável (mataram porque era fácil matá-la). Na mira de uma arma, todo mundo é Davi. Na posse de uma arma, todo mundo é Golias.


Muito menos faz sentido atribuir essa motivação ao fato de ela ser negra ou bi. Bandido está pouco se lixando para isso. E por isso mesmo, não faz sentido tentar criar uma comoção como se os assassinos merecessem um linchamento moral por serem discriminatórios - mesmo depois de já condenados. Eles merecem um linchamento moral pelo fato de serem assassinos. 


Assim, quando a gente segmenta nosso julgamento para os criminosos contra a vida, a gente fragiliza o processo inteiro. SE homens, no Brasil, morrem assassinados em uma quantidade muito maior do que a de mulheres, É LÓGICO que para tentar coibir estes crimes, deve-se aumentar as penas TAMBÉM para os matadores de homens, porque quem mata mulheres também mata homens e, quem mata homens, obviamente, também mata mulheres - e, simplesmente, porque este tipo de gente NÃO TEM COMPAIXÃO pela vida humana em geral. Mas se não conseguimos recuperá-los para a sociedade (mesmo porque, em primeiro lugar, queremos vingar quem foi morto - e, diga-se de passagem, não há nenhum grande mal nisso), pelo menos mantemos eles LONGE durante mais tempo. 


DESOPORTUNIZAR, portanto, o direito de retorno dessas pessoas ao convívio social não é um gesto de desumanidade mas, sim, de respeito ao cidadão. Se queremos realmente proteger as mulheres devemos manter os matadores, independentemente do gênero que eles vitimam, isolados de nós. Pessoas que já tem muito dinheiro não podem tirar a vida dos cidadãos para garantir mais dinheiro.


É importante, então, que a gente entenda: para os criminosos matarem eles precisam apenas enxergar em você um obstáculo. Como no caso de Marielle, não serão nossas características pessoais que farão alguma diferença - salvo se tivermos algum valor no meio social (e, às vezes, nem isso importa) -, mas, sim, o que nossa morte pode lhes representar de benefício. 


Forte abraço. 


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