Artigos  •  Noves Fora  •  Notícias

Você está em  Artigos

ver artigo
https://www.contraponto.net/artigos/me-permita-uma-proclise/
https://www.contraponto.net/artigos/me-permita-uma-proclise/
Se gostar deste texto, ajude a propagar estas ideias compartilhando nas redes sociais. Obrigado.
https://www.contraponto.net/artigos/me-permita-uma-proclise/
https://www.contraponto.net/artigos/me-permita-uma-proclise/
Se gostar deste texto, ajude a propagar estas ideias compartilhando nas redes sociais. Obrigado.

■   01/04/2017  •  Língua  •  9894 hits  •  2 comentários ⇣

Me permita uma próclise

Me desculpe por esta próclise, mas é a forma que encontrei de já iniciar polemizando. Se você já sabe o que é, possivelmente é contra, mas se não sabe, então nem se tocou. A próclise em nossa língua não é nenhum crime. O problema é quando ela acontece no início de uma frase. Aí, para a Gramática Normativa brasileira vira um grande problema que, ironicamente, para a maior parte das pessoas que falam português, não faz a menor diferença. Simplesmente elas a usam sem se dar conta deste corriqueiro "pecado gramatical" e, com certeza, não a largarão mesmo depois de se informarem.

Mas, então, o que é próclise? Bom, ao contrário do que você possa pensar, próclise não é nenhuma peça acessória ao nosso corpo cuja função seja a de suprir alguma carência física ou motora: isso é prótese. Também não é nenhuma fase da reprodução celular: isso é prófase. Próclise é, basicamente, a anteposição do pronome oblíquo átono ao verbo numa oração e, pronome, por sua vez, é a palavra que substitui ou acompanha um nome, qualificando-o. Dentre os vários tipos que existem na língua portuguesa estão os pronomes pessoais, exemplificados abaixo:

Pronomes pessoais retos
Eu, tu, ele, nós, vós, eles

Pronomes pessoais oblíquos átonos
Me, te, o, a, se, lhe, nos, vos, os, as, se, lhes

Pronomes pessoais oblíquos tônicos
Mim, comigo, ti, contigo, ele, ela, si, nós, conosco, vós, convosco, eles, elas

Os pronomes têm suas formas de utilização já definidas pela Gramática, que são muitas e não são o foco deste artigo. O intuito aqui é apenas questionar a variação no uso de um tipo particular, o oblíquo átono. A próclise só existe a partir deste tipo de pronome e, além dela, existem outras duas formas de colocação pronominal que são a mesóclise e a ênclise. A mesóclise se caracteriza pela colocação do pronome no meio do verbo, e a ênclise, pela colocação do pronome logo após. A próclise, nosso objeto de questionamento, não é proibida no português normativo, é, inclusive, aceita em várias situações, e, em outras, chega a ser obrigatória. O que gera uma certa polêmica em relação a seu uso é o fato de que muitas pessoas utilizam este pronome de uma forma considerada incorreta pela Gramática, seja no início da frase ou no meio, em casos onde ela não parece "oportuna". Pra ficar mais claro, logo abaixo estão exemplos dos três tipos de colocação pronominal oblíqua que existem na língua portuguesa:

PRÓCLISE (anteposição do pronome ao verbo)
• Te amo
• Eu vou te ligar amanhã

MESÓCLISE (interposição do pronome no verbo)
• O evento realizar-se-á às 15 horas de amanhã
• Torná-lo-ei um grande vencedor

ÊNCLISE (posposição do pronome ao verbo)
• Encontre-me amanhã, após o jogo
• Por favor, ligue-me após as 14h, ok?

Esta é apenas uma lista crua de exemplos, sem explicações sobre as normas da colocação pronominal (para isso, acesse os links abaixo), e apenas o primeiro está incorreto. Mas, para nós, todos nos parecem familiares porque o que a gente conhece mesmo é a adequação das palavras numa relação de compreensão baseada no costume do uso e não nas infinitas regras (e exceções) que compõem nossa Gramática Normativa. Algumas dessas regras são questionáveis (na minha opinião e na dos linguistas), outras pertinentes e até necessárias, mas, não há dúvida que funcionam como um guia para que façamos as contruções faladas e escritas de nossa comunicação de uma maneira mais padronizada e, portanto, comum ao entendimento de todos. O problema acontece quando a comunicação popular entra em choque com estas regras e passa a se processar de uma forma que se torna habitual, como no caso do uso de frases que começam com o pronome oblíquo. Por mais que a norma culta faça suas padronizações, a depender da situação, quem acaba prevalecendo é a vontade popular. Daí, se milhões falam e entendem como certo o que era convencionado como errado, fica difícil reverter e "consertar". Por isso, a próclise no início da frase, considerada incorreta pela Gramática, é falada por quase todo mundo, inclusive por uma parte dos que se posicionam contra ela. Não acha? Perceba você mesmo, no seu dia a dia, quantas pessoas dizem "me ligue", "me procure", "me chame", "me fale", "me avise", etc.

A próclise principiando a frase se tornou um fenômeno no nosso português brasileiro, tanto na linguagem popular quanto em nossa música. Quem condena essa colocação pronominal "inadequada", acaba, sem perceber, fazendo parte do mesmo grupo que a aceita sem saber que está "errando", condicionado, justamente, pelo costume do uso. Grandes nomes da MPB e do Pop brasileiro já demonstraram não ter nenhum tipo de resistência a este tipo de construção frasal, e o público, por sua vez, absorve sem questionar. Exemplos? Seguem abaixo:

Próclise no início da frase:
• "Me chama, me chama, me chama..." - Me Chama (Lobão)
• "Me chama que eu vou..." - Me Chama que eu Vou (Sidney Magal)
• "Me liga, me liga" - Me Liga (Herbert Viana - Paralamas do Sucesso)
• "Me falou que o mal é bom e o bem cruel" - Tigresa (Caetano Veloso)
• "Me encontrou tão desarmada, que tocou meu coração..." - Teresinha (Chico Burque / Canta: Maria Bethânia)
• "Te amo e o tempo não varreu isso de mim..." - Caminhos de Sol (Herman Torres e Salgado Maranhão / Canta: Zizi Possi)
• "Lhe tenho amor, Lhe tenho horror, Lhe faço amor..." - Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
• "Me envolve com teu corpo e me dá, a força pra viver..." - Eva (versão: Rádio Táxi)
• "Me dê de presente o teu bis..." - Pro dia Nascer Feliz (Roberto Frejat/Cazuza / Canta: Barão Vermelho)
• "Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor" - Faz Parte do Meu Show (Cazuza / Renato Ladeira)

Próclise no meio da frase:
• "Vem cá Luiza, me dá tua mão..." - Luiza (Tom Jobim)
• "Fiquei esperando, pra te ver sorrindo, pra te ver cantando..." - Não Quero Dinheiro, Só Quero Amar (Tim Maia)
• "Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça..." - Grito de Alerta (Gonzaguinha / Canta: Maria Bethânia)
• "Por isso uma força me leva a cantar" - Força Estranha (Caetano Veloso / Canta: Gal Costa)
• "Não adianta nem me abandonar" - Esotérico (Gilberto Gil)
• "Chora peito, me mata de uma vez" - Chora Peito (Chrystian & Ralf)
• "Anda! Quero te dizer nenhum segredo" - O Sal da Terra (Beto Guedes)
• "Último anjo, vem me iluminar" - Magia Tropical (A Cor do Som)
• "Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar" - Nos Bailes da Vida (Milton Nascimento)
• "Lady Laura, me leve pra casa Lady Laura" - Lady Laura (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

Estas cancões são apenas uma amostra, dentre várias outras, que demonstram como a próclise faz parte do nosso vocabulário sem que nós nos apercebamos disto. Não estou considerando se estes exemplos são entendidos como corretos ou não pela Gramática, tampouco a chamada "licença poética", aquela que permite ao artista criar e transformar palavras e frases em prol de um determinado resultado fonético, porque o que parece evidente é que a colocação pronominal nessas composições é, na verdade, um reflexo do que já é falado na língua. O interessante é que, além de falarmos, no nosso cotidiano, cantamos as músicas que gostamos (seja pela parte musical, seja pela mensagem da letra) com o pronome oblíquo anteposto ao verbo e achamos tudo muito natural. Isso porque essa forma já se estabeleceu na comunicação popular, a despeito da recomendação gramatical e, por sua utilização, se tornou padrão. Assim, o que parece estranho é justamente a recomendação pela norma culta para não se utilizar a próclise em situações específicas, como, por exemplo, no início da frase. 


Frases/orações
Vamos ser sinceros: orações como "Te amo" soam meio esquisitas, sem expressão, e por que não dizer, ridículas quando convertidas para algo como "Amo-te". E eu tenho certeza que, assim como eu, outras pessoas não se sentem obrigadas a dizer "Eu te amo" - com o pronome pessoal reto no início da frase - apenas para satisfazer a Gramática. Nos expressar na forma como estamos acostumados é o que preferimos, e entendemos também que, por sua inteligibilidade e pela correta ortografia das palavras, uma frase como "Te amo" não deveria ser considerada errada. O argumento é de que o pronome tem uma pronúncia "fraca" e, portanto, não pode iniciar a oração. No caso de uma frase popular como "Faça-me o favor!", a ênclise impera porque a frase já foi acostumada dessa maneira, ao contrário de "Me faça uma garapa!" que é normalmente dita com próclise e soa correta e natural. "Me libere", "Me poupe" e "Me economize" são outras três expressões que perderiam sua força se ditas dentro do que prega a Gramática Normativa. Mas uma frase como "Ligue-me" num texto de comunicação informal (escrito ou falado) aparenta uma certa pretensiosidade, uma necessidade de mostrar que se sabe (nem que seja um pouco) a forma culta e assim, passar a ideia de mais informado. E, diferente de "Me", o pronome tônico "Mim" exerce uma função sintática um pouco diferente, portanto, "Mim ligue", é uma frase que pode ser considerada equivocada. "Ligue para mim" seria o adequado porque o pronome oblíquo tônico deveria sempre vir precedido de preposição.

Não estou aqui recriminando a possibilidade da ênclise com o intuito de evitar o pronome oblíquo no início da frase, mas como um falante da língua, considero importante questionar. Acho até que, para comunicações mais formais, a ênclise cabe e bem. Mas as linguagens tem que estar ajustadas ao seu contexto, por isso, concordo com a próclise no início da oração para escrita e fala coloquiais. Este texto, inclusive, por não ser tão formal, foi todo escrito com próclise (desconsiderando os exemplos), e se você não percebeu é porque não lhe fez diferença. Se você realmente é contra a próclise, faça um exercício de sinceridade: evite radicalmente todas as músicas e expressões populares que a utilizem e se manifeste apenas na forma gramatical considerada correta. Para a comunicação diária, no entanto, o uso do pronome no início da frase continuará denotando a preferência particular de muitos milhões de brasileiros e que, coincidentemente, coincide com a minha (e provavelmente com a sua). Me corrija se eu estiver errado.

Referências:
• Dicio - Mim ou me
• Infoescola - Colocação pronominal
• Wikipedia - Colocação pronominal
• Só Português - Pronomes
• Só Português - Colocação pronomes oblíquos átonos
• PDF - Colocação pronominal na música brasileira
• Livro - Não é errado falar assim! Em defesa do português brasileiro (2009) - Marcos Bagno

      
Design e desenvolvimento
Este site usa cookies para registro de dados com fins estatísticos, não representando, assim, invasão à privacidade do usuário como especificado na Política de privacidade do site.
Ao navegar por este site, você concorda com essa condição.